A afirmação é unânime entre os médicos: a única receita que realmente funciona para que o intestino trabalhe como um “reloginho” é manter uma vida saudável, com dieta balanceada, exercícios físicos regulares e um bom controle emocional. O uso indiscriminado e abusivo de laxantes - sejam eles drogas industrializadas ou ervas medicinais - só traz prejuízos à saúde.
De acordo com o médico Sender Jankiel Miszputen, chefe da disciplina de gastroenterologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o uso prolongado dos chamados purgantes pode alterar a sensibilidade do intestino.
Eles atuam estimulando as terminações nervosas da mucosa intestinal, favorecendo as contrações. Com o tempo, porém, o usuário acaba tendo a sensação de que o remédio não faz mais efeito e começa a ingerir doses cada vez maiores, tornando-se dependente do remédio.
Além disso, o resultado paliativo que se obtém com esses medicamentos apenas esconde a verdadeira causa do problema, como explica a médica gastroenterologista Ângela Aparecida de Oliveira Figueiredo.
“Por trás de um intestino preso sempre há uma doença orgânica e real. Ao tomar um remédio para fazer o intestino funcionar sem uma orientação adequada, você pode estar mascarando o verdadeiro problema. Um tumor, por exemplo”, adverte.
Ela afirma que uma das causas mais comuns da constipação intestinal é a Síndrome do Intestino Irritável (SII), que afeta uma em cada dez pessoas no mundo. Trata-se de um distúrbio que pode ter origem em diversos fatores, desde a ingestão insuficiente de fibras até alterações emocionais.
“Pessoas muito tensas, por exemplo, não conseguem relaxar o suficiente para evacuar. Elas nunca têm tempo para ir ao banheiro, então, quando a vontade vem, elas seguram. Isso faz com que as fezes fiquem ressecadas, tornando sua eliminação mais difícil”, comenta.
Outra situação comum é a pessoa que só se sente à vontade para usar o banheiro da própria casa. Se ela viaja ou passa muito tempo no trabalho, ela tende a segurar as fezes, redundando em prisão de ventre. “Também há aqueles que não evacuam regularmente porque o que ingerem não tem volume suficiente para formar as fezes”, salienta.
O problema, segundo os médicos, é que esta irregularidade nos hábitos intestinais acompanhada de ressecamento das fezes pode evoluir para alterações mais sérias. Uma das complicações é a diverticulose - formação de pregas na mucosa intestinal, que dificulta a passagem do bolo fecal.
Outro problema comum são as hemorróidas, tipo de dilatação dos vasos sangüíneos da região anal causada por esforço exagerado ao evacuar. A dilatação causa dor, sangramentos e prurido (coceira).
As fezes ressecadas também podem causar fissuras na região anal - pequenos cortes ou rachaduras na pele que causam dor, sangramentos e ardência ao evacuar.
Figueiredo salienta que a constipação intestinal crônica aumenta os riscos da pessoa desenvolver tumores no intestino. A retenção das fezes no tubo intestinal faz com que a mucosa tenha um contato muito prolongado com substâncias tóxicas presentes no bolo fecal. Além de alterar a flora intestinal, essas substâncias podem predispor o indivíduo ao câncer.
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