Cultura

Guinga lança

Por Redação (Com Mauro Dias | Agência Estado)
| Tempo de leitura: 4 min

No trato social, entre amigos, Guinga é sempre o mais falante, o mais alegre, o contador de piadas de que todos riem. Se o assunto é música, no entanto, sua atitude muda. Com música não se brinca. No palco, é circunspecto, concentrado, quase tímido. Com arte não se brinca. Mas a timidez, a circunspecção, itens não programados, fazem parte do fascínio que ele exerce sobre as platéias do mundo inteiro.

Tudo isso poderá ser conferido no espetáculo que ele realiza amanhã, às 21h30, na área de convivência do Serviço Social do Comércio (Sesc), em Bauru. Durante o show, o músico - que sobe ao palco acompanhado de Paulo Sérgio Santos (clarinete), Lula Galvão (violão e guitarra), Jorginho do Trompete e da cantora Anaí Rosa - vai apresentar o repertório de seu novo disco, “Noturno Copacabana”.

É seu sexto CD, como sempre lançado pela gravadora Velas. Nele, o compositor abre o leque de parcerias. Assina músicas com Simone Guimarães, Luís Felipe Gama, Francisco Bosco e Mauro Aguiar, talentos que se vêm somar aos habituais Paulo César Pinheiro, Chico Buarque, Nei Lopes (mais recentemente) e, sempre, sempre, Aldir Blanc.

“Noturno Copacabana” (que por pouco não se chamou “Garoa e Maresia”, em dupla homenagem a São Paulo e Rio de Janeiro) conta com as participações especiais de Jards Macalé (em “Concubinato”, letra de Mauro Aguiar) e da paulistana Ana Luíza, em “O Silêncio de Iara”, letra de Luís Felipe Gama. A canção foi gravada também por Simone Guimarães, no recém-lançado “Casa de Oceano”.

Quando ouviu “O Silêncio de Iara”, Chico Buarque disse: É a música do século.” Chico havia acabado de escrever “Budapeste”, queria voltar à música (ele pára de compor quando está escrevendo romances) e não encontrava o caminho. Ouvindo a canção de Guinga, viu voltar-lhe a inspiração. Não é pouco.

Haverá quem pergunte como pode funcionar um espetáculo com um metal, uma madeira e dois violões. Funciona às mil maravilhas. A dinâmica da música de Guinga dispensa marcação rítmica, pretere o acento do contrabaixo nos tempos fortes. Está tudo em seu violão extraordinário, já considerado, internacionalmente, um dos grandes de todos os tempos.

É um violão muito específico, muito pessoal. Guinga não aprendeu música, formalmente - o que não o impediu de se transformar no maior compositor brasileiro vivo. Aprendeu ouvindo, tocando, e foi criando sua própria técnica (que hoje influencia nove entre dez expressões jovens e estudiosas do instrumento, entre nós).

Guinga quase não monta acordes: caminha com as notas, criando texturas, contrapontos, contracantos, trabalhando o traçado harmônico complementarmente ao desenho melódico (e não como base, apoio, justificativa, explicação, como é comum).

Costuma dizer que não é bom cantor, que não sabe cantar, o que é apenas modéstia, mesmo que ele não seja modesto e saiba muito bem da qualidade e importância de sua obra. É que, talvez, pense que poderia cantar melhor. Talvez. Seja como for, ainda é o melhor intérprete de sua obra. E ele já foi gravado por Elis, MPB-4, Chico Buarque, Leila Pinheiro, Clara Nunes, Sérgio Mendes Ivan Lins...

Para comprovar, basta ouvi-lo cantando “Catavento e Girassol” (dele e de Aldir), que foi sucesso na voz de Leila Pinheiro. Na voz de Guinga, a canção de desamor ganha espessura, densidade, estabelece dramaturgia - transcende o limite da canção para estabelecer um estado de espírito, comunhão de sensações conflitantes - expressão de arte, grande arte.

“Catavento e Girassol” é uma das canções que não estão no disco, mas que o compositor apresentará no show de amanhã.

Carreira

Carioca, nascido em 10 de junho de 1950, Carlos Althier de Souza Lemos Escobar, o Guinga, alterna o trabalho de compositor e violonista com o de dentista, sua profissão original. Deu seus primeiros passos na carreira artística em 1973, quando o grupo MPB-4 gravou duas composições de sua autoria, “Conversa com o Coração” e “Maldição de Ravel”, ambas em parceria com Paulo César Pinheiro.

Em 1979 foi a vez da música “Bolero de Satã”, também uma parceria com Paulo César Pinheiro, que foi gravada por Elis Regina. Nas décadas de 70 e 80 participou de diversas gravações como violonista e em 1989 fez seu primeiro show. A partir daí, conquistou reconhecimento no meio musical, pelo talento como instrumentista e compositor.

Seu primeiro disco, “Simples e Absurdo”, foi lançado em 1991 e contou com participações de Chico Buarque, Ivan Lins e Leny Andrade, entre outros. Seus CDs seguintes foram “Delírio Carioca”, de 1993, em que participaram Djavan, Zé Renato e Leila Pinheiro, entre outros. Logo depois veio “Cheio de Dedos”, de 1996, que concorreu ao Prêmio Sharp de 1997 e venceu nas categorias Melhor Disco, Melhor Música Instrumental e Melhor Música de MPB.

“Suíte Leopoldina”, CD de 1999, foi considerado pelos jornais O Globo e Jornal do Brasil o melhor álbum de MPB do ano, Já o “Cine Baronesa”, de 2001, contou com participações de Ed Motta, Lenine, Alceu Valença, Chico Buarque e Ivan Lins, entre outros.

Guinga é um dos poucos artistas que gozam de prestígio em praticamente todo o meio da MPB, o que lhe garantiu, além de elogios e reconhecimento, que sua vida e carreira fossem retratadas na biografia “Os Mais Belos Acordes do Subúrbio”, pelas mãos do jornalista Mario Marques, lançado em junho do ano passado.

• Serviço

Show de Guinga amanhã, às 21h30, na área de convivência do Sesc. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (14) 3235-1750.

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