No ocaso de seu pontificado, João Paulo II vive um drama pessoal. O mal de Parkinson, já visível há anos, tem deixado a saúde do sumo pontífice em situação cada vez mais delicada. Entretanto, a posição em que se encontra o Vaticano neste momento não é menos preocupante. A saúde delicada do Papa levou a cúpula da Igreja Católica a viver um dilema.
João Paulo II, a partir de 16 de outubro passado, quando comemorou seu Jubileu de Prata frente à Igreja Católica, já vive um dos mais longos Papados da história. Antes dele, somente três, dos 263 líderes anteriores, tiveram um período tão longo no cargo. Sua atuação no comando da Igreja é marcante. Um dos pontos mais importantes, sem dúvida, será a lembrança de sua vasta capacidade de pregação, ou seja, um papa que deixou os domínios do Vaticano para encontrar e arregimentar fiéis pelo mundo.
Sua postura imprimiu uma nova dinâmica para o cargo. A influência que exerce sobre os mecanismos do catolicismo trazem um forte legado, que não poderá ser negado, qualquer que seja seu sucessor. Assim, sua sucessão, que já era comentada pelos corredores do Vaticano há certo tempo, especialmente depois da descoberta do mal de Parkinson, hoje se tornou um assunto da mais alta importância, em especial entre os cardeais, que indicarão, dentre dos membros de seu colégio, como ensina o Direito Canônico, o futuro ocupante do cargo. O próximo Papa balizará a adequação da Igreja Católica aos novos tempos, ou seja, decidirá se o Vaticano permanecerá conservador ou se tomará atitudes mais ousadas, progressistas. É possível que a saúde de João Paulo II se agrave, cenário preocupante para os cardeais. Não existe disposição no Direito Canônico que estabeleça afastamento de um Papa em caso de graves danos ocasionados por uma enfermidade. Especula-se, contudo, que João Paulo II deixou instruções para os cardeais em caso de sua condição de saúde tornar-se insustentável.
Muitos acreditam na indicação de um cardeal africano. Neste caso, o nome mais forte é Francis Azinze, da Nigéria. Outros nomes, de uma lista com cerca de 20, são cogitados, como Christoph Schonborn, austríaco; Dionigi Tettamanzi, italiano; Mario Bergoglio, da Argentina; Claudio Hummes, do Brasil; e Jaime Lucas Ortega, de Cuba. De qualquer forma, o Vaticano não deve escolher um cardeal mais jovem para exercer o Papado, visto que isto acarreta um pontificado longo.
O pontificado atual já deixou, inquestionavelmente, sua marca, apesar de não promover mudanças tão profundas como o Papa João XXIII. Seu sucessor, seja nesse momento, ou no futuro, assumirá em um período delicado, pois, recebida a herança de um Papa popular e pragmático, organizará os novos rumos da Igreja Católica no mundo de sua janela na Praça de São Pedro. Até lá, rezemos por João Paulo II.
O autor, Márcio Chalegre Coimbra, é advogado.