Os bauruenses estão sendo chocados todos os dias com as más notícias divulgadas pelos seus meios de comunicação de massa. Os fatos negativos fazem parte da rotina da Imprensa e não há como evitá-los. Mesmo que não queira o cidadão se entristece e se desmotiva ao saber que a cidade perde investimentos. A prefeitura está endividada. Pipocam os escândalos sobre o dinheiro público malversado. O prefeito cassado por improbidade administrativa retorna ao cargo depois de substituído pelo vice que também deixou dúvidas na escolha das suas companhias. Todos esses infortúnios levam o cidadão de qualquer nível social a uma profunda descrença nos seus homens públicos. O pior é que nem de longe se vislumbra o surgimento de líderes capazes de articular e fazer convergir interesses e opiniões contraditórias em torno de projetos inovadores.
Diante desse retrato-em-branco-e-preto nada mais oportuno de que a idéia lançada por este jornal de se formar uma frente capaz de diagnosticar os problemas de Bauru, levantar as nossas potencialidades e vocações e implementar um plano para alavancar o município.
Bauru tem “massa crítica” para isso. É sede de meios de divulgação importantes; temos quatro universidades onde se desenvolvem pesquisas de ponta; temos centros de excelência médica; empresas comerciais e industriais locais estão ranqueadas entre as maiores nas suas áreas de negócios; e, estão aqui prestadores de serviços requisitados em todo o País. O que se estagnou na cidade foi o empreendedorismo político. Sem desenvolver a sua capacidade de articulação política, nenhuma pessoa conseguirá assumir um papel de liderança em empresas, governos ou parlamentos, ou em organizações do terceiro setor.
Infelizmente não existem escolas nem cursos práticos de arte da política. Por isso, possivelmente, o político bauruense ainda se utilize dos métodos de persuasão anacrônicos que vão desde o “tudo para os amigos e banana para o resto” até a clara intenção de fazer o erário pagar suas contas de promoção eleitoral. O quadro partidário deve ser mantido pelos cofres públicos, pois não? Em toda transmissão de cargo, na Câmara, os empreiteiros com seus celulares vibram até mais que a turma do holerite porque percebem que terão de volta o dinheiro investido – em dobro, em triplo, em quádruplo.
O fim desse tipo de política – que nunca deveria ter existido - já foi decretado há muito tempo. A política moderna pugna “pela atuação coletiva como alicerce das decisões públicas” e pela “emergência de novas modalidade e atores políticos”. Quem diz isso é Norberto Bobbio com base em Baudrillard, Foucault e Castoriadis que requisitam a atuação dos cidadãos e o exercício de um debate público para criar e implementar alternativas de governo da sociedade. Todos eles são unânimes em apontar a responsabilidade da imprensa nessa transmutação. Aos jornais é dado o mesmo papel daqueles que proliferaram em torno da Revolução Francesa. Hoje, não mais como meros amplificadores das opiniões e idéias políticas mas como garantia de comunicabilidade à imensa maioria da população. O povo foi excluído da prática da política para não atrapalhar os desvios de verbas que deveriam melhorar a sua qualidade de vida.
Para ser mais prático, o que se pode fazer – já que não podemos transformar o modelo político brasileiro e implantar o anarquismo no qual o Estado é dispensável – é sensibilizar o mandatário eleito e os vereadores para a necessidade de investir em sua própria capacitação e na capacitação dos seus colaboradores, para que possam empreender e gerir, com sucesso, iniciativas de desenvolvimento municipal. Isto é: fazer com que ouçam a sociedade. Ou então que se entregue a prefeitura a um gerente contratado. Estaria assim suprido o nosso déficit de capacidade de empreender. Já existem municípios adotando essa prática. Parte-se do princípio que os prefeitos eleitos são os representantes legítimos dos municípios. Eles devem exercer a política democrática de governar em suas localidades. No entanto, não se pode exigir que esses representantes conheçam todos os meandros da moderna administração pública e que possuam os conhecimentos necessários para realizar uma gestão empreendedora do desenvolvimento em todas as suas dimensões: econômica, social, cultural, físico-territorial e ambiental, político-institucional e científico-tecnológica. Então, que se encontre um gerente capacitado para isso, remunerado de acordo com o mercado. Se não for bom troca-se por outro, sem maiores traumas.
É bom deixar claro que essa formatação jamais funcionará com políticos desonestos. Ainda bem que está pronto para sanção do governo Lula o projeto de lei que eleva de dois para 12 anos de cadeia a pena para quem mete a mão no dinheiro público. A pena só será abrandada em caso de devolução de tudo o que foi roubado, com juros e correção.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.