Tornou-se lugar comum falar de mundo unipolar. Da mesma maneira que ocorre com a mal chamada globalização, poucos parecem dispostos a questionar o que parece inquestionável. Os EUA, país vencedor da Guerra Fria, são hoje a única superpotência mundial e o país em torno do qual gira o mundo. No entanto, efetivamente, os EUA são o único pólo de poder ou sua hegemonia responde a uma soma de fatos circunstanciais que desaparecerão nos próximos anos ou décadas?
Os EUA nunca enfrentaram, sozinhos, adversários de peso equivalente. A expansão territorial - sua mitificada e hollywoodiana conquista do Oeste - foi o primeiro genocídio planejado da era moderna. Seguiram-se México e uma atrasada Espanha, derrotada em 1898. Depois Cuba, Haiti, Nicarágua, Panamá... A participação dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial foi simbólica e na Segunda, embora com uma implicação muito maior, participou com aliados tão poderosos como a URSS, que sozinha quebrou a espinha dorsal do poder nazista.
Os EUA já não são a primeira potência industrial e comercial do mundo, posto ocupado pela União Européia (UE) e que vai se reforçando na medida em que ingressam novos países. Como assinala Emmanuel Todd, a norte-americana converteu-se em uma economia dependente do resto do mundo. O orçamento federal passou de um superávit de 2,3% em 2000 para déficit de 2,3% no final de 2002, até disparar em 2003 chegando a US$ 500 bilhões. A poupança interna caiu de 5% em meados dos anos 90 para o mínimo histórico de 1,3%.
É no campo militar convencional que os Estados Unidos não têm rivais. Seu orçamento de US$ 460 bilhões, 45% do gasto mundial, é impossível de ser igualado. O problema é que tanto gasto tem escassa utilidade prática. Se aceitarmos como certa a afirmação de que o terrorismo é a principal ameaça para os Estados Unidos, tanques e aviões não servem para combatê-lo, como Israel sabe muito bem. Se se trata de países inimigos, sua estratégia não parece alcançar os objetivos desejados. Os Estados Unidos derrubaram o governo talibã, mas seu controle do país não passa de Cabul e a guerra continua. No Iraque, a guerra de guerrilhas causou mais baixas do que a própria guerra, e continuará.
O problema real para os Estados Unidos não é esse grupo de países pobres, isolados e fracos aos quais reduz a párias. Seu problema é o que fará quando Rússia e China, uma recuperada dos desastres de Yeltsin e a outra tendo alcançado o nível de poder que constrói com paciência asiática, reclamarem o lugar que lhes corresponde.
Por trás da aparente onipotência dos Estados Unidos movem-se forças poderosas, umas que são óbvias para quem quer ver, outras apenas vislumbradas e, ainda, outras que estão esperando escondidas. A Europa (e o mundo) deveria fazer contas e entender que avalizar sem mais nem menos os Estados Unidos em seu imperialismo militar de perdas nítidas pode gerar um conflito interminável, mistura de fanatismo religioso, crise econômica, geopolítica antiquada e fascismo light. Como dizia Henry Kamen, “a preservação do império espanhol se deveu à geral queda de todas as potências”. A hiperpotência dos Estados Unidos é como é pela queda geral dos outros poderes. Mas, como ocorreu com a Espanha, será uma hegemonia efêmera. A pergunta é: que preço a humanidade pagará por um mundo multipolar e mais seguro?
O autor, Augusto Zamora, é professor de Direito Internacional Público e Relações Internacionais.