Os poderes públicos paulistanos não estão se preocupando unicamente quanto ao problema relacionado com o trabalho profissional infantil em si, uma vez que há uma outra atividade que conclama também a sua mais devotada atenção. Situa-se ela no terreno das crianças que voluntariamente catam lixo nas vias públicas, nas calçadas junto a estabelecimentos comerciais, industriais e de serviços e, igualmente, diante de residências de todos os tamanhos e aspectos, ricos ou pobres. Justificam-se tais apreensões porque, segundo estimativas levantadas em todos os seguimentos, cerca de 6 mil menores se dedicam hoje em dia a essa atividade na imensa Paulicéia, condenada pelos órgãos responsáveis em razão da intensa faina de tantas crianças ainda circunscritas à idade juvenil.
Filhos de pais pobres, grande parte desempregados, os garotos não têm outra alternativa para ajudar a família em sua subsistência a não ser coletar os restos que encontram nas ruas e avenidas e vendê-los aos que desejam comprá-los, auferindo pela carga uns poucos reais e, pior que isso, correndo o perigo de serem acometidos de graves males físicos, inclusive problemas de coluna. Agem bem as autoridades correlatas usando os recursos que possuam para socorrer esses desprendidos coletores das imundícies abandonadas nas artérias, o que também ocorre nas demais cidades do País, até mesmo diminutas, nas quais multidões de menores participam da faxina, imitando as da metrópole paulistana e de outras tantas disseminadas pelos quadrantes nacionais, em função do que palmilham diariamente dezenas de quilômetros transportando pesos nos ombros e nas cabeças ou empurrando carrinhos carregados de papéis usados e outras coisas imprestáveis.
Mencionam-se 6 mil, mas parece não haver interesse em apurar-se o verdadeiro número de meninos e meninas catadores, deixados de lado provavelmente devido à existência de problemas maiores, tidos e havidos pelos Conselhos Tutelares da Infância como de dimensões bem maiores (será que mais preocupantes?), não sendo suficiente então o acompanhamento que a Pastoral da Criança (CNBB) leva a efeito rotineiramente junto aos menores que vivem em dolorosos bolsões de pobreza e miséria e não conhecem, portanto, nem por ouvir falar e enaltecer, o mundo mais justo e fraterno do qual tanto se cogita. É a nossa opinião.
O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.