Iniciou-se agora o mês sagrado da religião islâmica e o noticiário internacional nos dá conta de um dramático recrudescimento das ações bélicas contra o invasor americano praticadas pelos iraquianos.
Delas fizeram parte ataques realizados com mísseis contra a própria sede da administração dos invasores. Nela, e em outras ações realizadas em Bagdá, teriam perecido mais de 30 invasores, inclusive um coronel, estimando-se em algo acima de 200, o número de feridos. Invasores e colaboracionistas locais que, a duras penas, têm conseguido subornar. E é incrível que os senhores Colin Powell e Wolwovitz se declarem surpreendidos com a duração e o aumento da resistência local. Ignorariam esses cavalheiros que estavam invadindo e pisoteando a região de civilização possivelmente mais antiga do mundo? Será possível que mascadores de chicletes e devoradores de hamburgeres ignorassem que ali, há milhares de anos, floresceu a civilização dos califados abássidas, depois da qual veio a era dos sumérios, aos quais se deve a primeira escrita com caracteres fonéticos, cuneiformes, com os quais foi redigido o mais antigo código de leis que a História registra, o código de Hamurabi? Que só depois vieram os tão antigos assírios, tendo reinado sobre os mesmos o célebre rei Assurbanipal? Que, depois dos assírios, vieram os babilônios, com a sua Capital, Babilônia, com os seus famosos e maravilhosos jardins suspensos e o famoso rei Nabucodonosor? Babilônia onde foram cativos os judeus, em época descrita no Antigo Testamento? Que depois dos babilônios é que a antiquíssima Bagdá foi dominada pela crença islamita, fundada no Corão?
Os arrivistas invasores imaginavam ser aceitos de bom grado, com a forma depravada do ideal democrático, que denominam democracia, e pretendem impor a todos, à força, se for preciso? E por que pretendem fazê-lo? É porque essa forma degradada do ideal democrático, deliberadamente faz fonte de verdade a opinião de maiorias e confunde a liberdade como conceito com a liberdade como exercício por parte dos seres imperfeitos como somos todos nós. Que com base em tais equívocos, aos que dispõem dos meios para garantir as maiorias legislativas e o sentido do produto que elaboram, tomaram nas mãos as rédeas do processo histórico, e ensejaram o alastramento de todos os vícios e a generalização da corrupção, verdadeiro ópio dos povos que os mantêm incapazes de se defender dos que os exploram da maneira mais evidente e mais cruel? Observem os que nos honra com a leitura dessas “Reflexões” e, ouvindo o íntimo da sua consciência, vejam se não é este o panorama dos dias amargos e dolorosos que estamos vivendo e que, julgamos, correspondem à agonia de uma civilização vitimada pelos erros em que se deixou enlevar.
O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC.