A Companhia Teatral Cena Aberta realiza hoje, no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”, a leitura do texto “Ponto de Partida”, de Gianfrancesco Guarnieri, a partir das 19h. O evento, gratuito, integra o Ciclo de Leituras Dramáticas “Panorama do Teatro Brasileiro/100 anos de História”, por meio do projeto Santo de Casa, da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), que está em 6ª edição.
“Ponto de Partida” foi escrito em 1976, logo após a morte do jornalista Vladimir Herzog, em 25 de outubro daquele ano, nas dependências do DOI-CODI do 2º Exército, em São Paulo. Herzog, então editor do jornal Opinião e responsável pelo telejornalismo da TVE, havia sido preso dias antes e foi morto após de ser torturado. Para encobrir o assassinato, os responsáveis forjaram uma cena de suicídio que não enganou ninguém.
A sociedade, mesmo oprimida pela ditadura, protestou e a morte de Herzog acabou se tornando um divisor de águas na luta pela democracia no País. Anos mais tarde, a tese do suicídio foi desmascarada e o jornalista foi reconhecido oficialmente como vítima do regime político da época.
O texto de Guarnieri fez parte desse processo de revolta em torno da morte de Herzog. O ator e dramaturgo - amigo do jornalista (chamado de Vlado pelos mais próximos) estava em turnê pelo Interior paulista quando soube do assassinato, voltou para a Capital e dias depois criou “Ponto de Partida”, um protesto indignado contra a opressão e a violência.
Para poder divulgar o trabalho num período tão perigoso, despistou dizendo que a peça era uma fábula inspirada em um conto medieval no qual dominados e dominadores precisam se posicionar após um acontecimento.
Um dos principais atores e dramaturgos brasileiros das últimas décadas, com trabalhos memoráveis no teatro, cinema e televisão, Guarnieri se destaca como autor pelo forte conteúdo social e político dos seus textos, entre os quais estão, além do que o Cena Aberta lê hoje, “Um Grito Parado no Ar” (já montado pela companhia bauruense), “O Filho do Cão” e o já clássico “Eles Não Usam Black-Tie”, também adaptado no cinema.
• Serviço
Leitura do texto “Ponto de Partida”, de Gianfrancesco Guarnieri, pelo grupo Cena Aberta. Hoje, às 19h, no Centro Cultural. Entrada gratuita. Avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: (14) 3235-1072.
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A voz do autor
Depoimento de Guarnieri em homenagem a Herzog no 25.º aniversário de morte do jornalista.
“Sob o impacto da morte de Vlado escrevi ‘Ponto de Partida’. Intuía ser aquele momento decisivo para a derrocada do regime militar. Motivado não só pela dor e indignação mas, particularmente, pela urgência de alardear o que se passava conosco, com nosso país e com os melhores de nossa sofrida gente. Amordaçados pela censura, éramos obrigados a descobrir caminhos que nos permitissem a expressão sem colocar em perigo a obra e a nós mesmos. Impedidos de escrever sobre a realidade presente, classifiquei a peça como ‘fábula’, na acepção de narração de coisas imaginárias, ficção. Afirmei ter-me inspirado em uma lenda medieval. ‘... é sobretudo a fria exposição de um instante histórico determinado e terrível. Um episódio serve de incontrolável estopim para uma crise sóciopolítica que envolve toda uma comunidade, no caso uma aldeia medieval. Poderosos e dominados estão perplexos e hesitantes, impotentes e angustiados. Contendo justos gestos de ódio e revolta, taticamente recuando diante de forças transitoriamente invencíveis. Um dia os tempos serão outros. Diante de um homem morto, todos precisam se definir. Ninguém pode permanecer indiferente. A morte de um amigo é a de todos nós. Sobretudo quando é o Velho que assassina o Novo”.
Fonte: Fundação Perseu Abramo