“Nariz, ai meu nariz... como falam mal do meu nasal que é tão normal!”, cantava Juca Chaves nos anos 70. Afinal, ele é detentor de um narigão. “Atchim”, um dos anões de Branca de Neve foi outro a tê-lo avantajado. E como espirrava! Imenso também era o nariz do Cyrano de Bergerac, figura literária criada por Edmond Rostand. Num conto de Ronosuke Akutigawa, imenso é o nariz do seminarista Zenti Naigu: 15 centímetros. Por causa do tamanho, despencava-lhe à boca e dificultava a sua alimentação.
Nariz volumoso esteticamente incomoda. Sabe-se que a cirurgia plástica pode melhorá-lo visualmente. Assim mesmo, essa diminuição nem sempre agrada. No conto, Zenti Naigu conseguiu torná-lo bem menor, mas não gostou do resultado e passou a sentir saudade do nariz graúdo que possuía.
Se nariz grande relaciona-se à feiúra, nariz pequeno, bem acabado, arrebitado às vezes, está ligado à beleza, embora o nariz grego foi sempre considerado o símbolo da beleza clássica. No entanto, conheço pessoa que modificou o desenho de seu nariz grego.
Grande ou pequeno, arrebitado ou não, o nariz é um componente anatômico, integrado no nosso rosto (e dos animais), com formato triangular, localizado abaixo da testa e acima da boca. São suas principais funções: a respiratória (enchendo e esvaziando nossos pulmões), a olfativa (permitindo-nos sentir desde a fragrância de suaves perfumes ou o aroma de uma comida, até o mau cheiro de um depósito de lixo) e, também, válvula de escape para nossos espirros. Quando tem carne esponjosa em seu interior, o nariz pode influir na voz dos indivíduos, tornando-a nasalada, fanhosa. Indesejável é o gesto da pessoa que enfia o dedo no nariz.
O nariz tem um papel preponderante na literatura universal. Quem leu o conto homônimo de Nicolai Gogol, testemunhou o acidente do barbeiro Ivan Iacolievitch, cortando o nariz do inspetor-geral Kovaliov e o vazio daí resultante. E o nariz mentiroso de Pinóquio, o boneco de madeira criado por Gepeto, na obra de Carlo Collodi? Quanto mais ele mentia, mais o aparelho nasal crescia.
Monteiro Lobato criou o “Sítio do Pica-Pau Amarelo” e a figura de Narizinho, menina de nariz arrebitado. Pinóquio e Narizinho sempre encantaram a criançada.
Quantas vezes nós lemos no noticiário dos jornais, que um avião acidentou-se ao aterrisar de nariz. Nesse caso não precisa de imagem para ilustrar a matéria noticiosa, pois sabemos como aconteceu. Mas avião tem nariz? É claro que não.
Fora de seu papel anatômico, o nariz enseja diversas figuras metafóricas. “Dar com o nariz na porta”, por exemplo, significa a pessoa não ser recebida por quem ela esperava que fosse. Não sendo recebida, a pessoa fica com o “nariz torcido”. O indivíduo que se envolve em todos os assuntos, muitos que não lhe dizem respeito, “estará metendo o nariz onde não devia”. “Nariz de cera” é o artifício do escriba para encompridar um assunto para preencher a lauda, recurso que espero não ter utilizado neste texto.
O autor, Irineu Azevedo Bastos, é escritor e colaborador do Ju Machado Escritório de Arte.