Economia & Negócios

Artigo: Perigo à vista


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A última reunião do G-7 e o relatório do FMI alertando para o risco do acúmulo excessivo de reservas pelos países asiáticos explicitam o grande descompasso que abala a base do sistema financeiro internacional. Segundo o próprio Bank for International Settlements, a economia globalizada vai-se deparando, de maneira cada vez mais acentuada, com um dilema mortal: como resolver os desequilíbrios nas contas externas das principais economias e, simultaneamente, garantir um crescimento econômico mundial robusto?

A frágil reação à baixa performance da economia norte-americana só se fez possível por causa do aumento contínuo dos gastos de consumo das endividadas famílias, da rápida elevação do déficit fiscal e do crescimento do endividamento externo. A política monetária apresentou forte afrouxamento, com o FED trazendo a funds rate de 6,5% para 1%. Já as contas públicas passaram de um superávit de 0,87% do PIB, no último trimestre de 2000, para uma expectativa de déficit de 4,2% no ano fiscal de 2003. A melhor recuperação possível, nas palavras do ex-economista-chefe do FMI, Kenneth

Rogoff, se traduziu em apenas elevação do crescimento do produto interno, enquanto o desemprego tem-se mantido em patamar historicamente elevado e a renda pessoal permanece estagnada.

Crenças cada vez mais fortes do abandono da política do “dólar forte” alimentam enorme pressão vendedora sobre a moeda norte-americana, sinalizando o esgotamento dessa estratégia. Só no mês de setembro, o dólar perdeu aproximadamente 6% do seu poder de compra em relação ao euro e 5% frente ao iene. Este baile entre as principais moedas conversíveis é alarmante. Se efetivamente houver um realinhamento cambial, os resultados certamente não serão neutros. A perda de valor do dólar trará prejuízos aos detentores de ativos denominados nesta moeda e ameaçará as cambaleantes economias européia e japonesa.

O imenso déficit em conta corrente dos Estados Unidos (cerca de 5% do PIB no primeiro trimestre deste ano) e a valorização do euro (indesejada pela União Européia) unem os dois centros na pressão junto aos países asiáticos por maior flexibilidade na taxa de câmbio. Com isso, tenta-se protelar um ajuste inevitável e, ao mesmo tempo, minar uma exitosa estratégia de desenvolvimento de diversos países asiáticos, com base em uma forte acumulação de capital, a utilização de uma taxa de câmbio depreciada e uma taxa de juros menor.

Apesar de alguma recuperação no investimento e as potencialidades da economia, a retomada de um crescimento mais robusto está cerceada pela disponibilidade de poupança. Dada a baixa poupança privada e a contribuição negativa do Governo Bush, não só pelo aumento da despoupança pública e pela percepção cada vez maior de que os juros de longo prazo serão aumentados, só restaria a opção pela poupança externa para financiar os investimentos. Mas seria possível fazê-la com o o déficit-corrente beirando os 5% do PIB? Ou mais, até quando as demais economias estariam dispostas a jogar esse jogo?

Ainda que a hegemonia monetária e política dos EUA se mantenha, a elevação do déficit em conta corrente parece neste momento no mínimo temerária. Segundo alguns economistas, a posição devedora vem crescendo ao ritmo de 20% ao ano e há estimativas de mercado de que o déficit atinja entre 6,5% e 7% do PIB ao final de 2004.

Isso poderá representar uma situação claramente insustentável, principalmente quando há evidências cada vez mais claras da indisposição do mundo em manter ativos em dólares, como mostram as recentes valorizações do euro, do ouro e a queda de representatividade da moeda norte-americana nos empréstimos bancários internacionais.

O autor, Everton Gonçalves, é doutor em Economia pela FGV e Economista do Banco BNL do Brasil S.A.

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