JC Criança

As perdas das nossas vidas

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 5 min

Quando criança, sempre visitava o cemitério com minha mãe, minhas tias e meus primos no Dia de Finados. Para mim, a data era motivo de festa, pois reuníamos a família para dar um “alô” aos nossos tios, avós e amigos que já tinham partido. A gente não entendia muito bem toda aquele povo, com flores nas mãos, alguns chorando, outros nem tanto, mas todos lembrando com carinho daqueles que se foram.

A nossa maior “aventura” no cemitério era visitar as sepulturas que tinham esculturas. Uma delas, que sempre gostei muito, tinha - ops, tem até hoje - uma enorme estátua de Nossa Senhora sentada. Todas as vezes que passávamos por ela, fazíamos questão de sentar em seu colo. Parecia que ela dizia assim: “Não fica triste!” Aí eu não ficava!

Hoje é celebrado o Dia de Finados, uma data escolhida para recordar das pessoas que morreram e continuam sendo muito queridas. Cada pessoa tem um jeito de entender a morte, que parece ser uma coisa meio difícil mesmo. A gente sabe que todos vão morrer, mas ninguém sabe o dia e nem como.

Mas isso não é importante. O natural é morrer bem velhinho, depois de viver bastante, brincar muito e conhecer várias pessoas. Só que, às vezes, as pessoas podem morrer ainda jovens ou mesmo criança, o que é mais difícil.

A psicóloga Maria Regina Corrêa Lopes Vanin, coordenadora do Instituto Bauruense de Psicodrama, conta que até mesmo os adultos têm dificuldade em entender a morte. “As pessoas mais espiritualizadas, independente de religião, são aquelas que recebem com mais tranqüilidade essa passagem natural da vida para a morte”, explica.

Regina fala do livro “Algo está acontecendo”, da terapeuta junguiana Winifred Rushforth, que morreu aos 96 anos, para dar um exemplo bem interessante para a gente entender um pouquinho sobre a morte.

“A velhice nos traz a mensagem de que o corpo deve morrer, e mais do que isso, permite-nos perceber conscientemente que o espírito, nossa psique, não é sujeito à morte e sim à transformação e a novas possibilidades de vida. Vejamos mais uma vez o símbolo da psique, que é um termo grego para borboleta. O ovo adormecido amadurece até tornar-se larva, lagarta. Depois de ter comido folhas suficientes, atingido a maturidade, ela faz o seu casulo, onde se desintegra e renasce com outro corpo, dotado de asas.” É o nascimento de uma borboleta.

Regina fala que a morte do corpo não significa a morte do espírito. É uma transformação. Aliás, uma transformação que todos vão passar, pois a morte é uma certeza da vida. E dói só para quem fica!

Cuidar da dor

Não é nada fácil lidar com as nossas perdas. Se você já perdeu um bichinho de estimação deve saber muito bem o que é isso. A gente sente uma dorzinha lá dentro do peito, difícil de entender, mas que é muito forte não sentir. É uma dor de saudade de quem a gente não vai ver mais.

Sentir essa dorzinha é bastante importante porque é uma forma de fazer passar essa dor. A psicóloga Regina ensina que toda perda traz sofrimento e que é necessário senti-la. “A gente não deve negar a dor. Quando a criança perde um passarinho, ela precisa dar espaço para a dor da perda, assim ela vai passando”, explica.

Um exemplo bem legal que ela escolheu é comparar a dor da perda com a de um machucado. “Quando a gente tem uma ferida, tem que esperar ela cicatrizar. Às vezes sara rapidinho, quando é superficial, às vezes demora, quando o machucado é profundo.”

Da mesma forma, quando a gente sente a dor da perda de um ente querido é preciso chorar, deixar esse sentimento curar a feridinha aos poucos. “A morte faz parte da vida”, lembra Regina. Ela conta que choramos porque temos sentimentos de amor e carinho pelas pessoas. Então chorar é natural. “É normal ficar triste e é preciso ter permissão para chorar. Essa história de que menino não chora é errada”, lembra.

Gente grande chora, criança chora, seja menina ou menino, chorar, nessas horinhas de tristeza, é muito bom. É remédio para sarar da dor. É importante também ter pessoas para dividir o momento, para se apoiar na hora da dor.

Como a semente tem que morrer para nascer uma nova flor, todos passam pela morte para uma transformação. “A natureza sempre nos mostra que as transformações ocorrem o tempo todo”, diz a psicóloga.

Há alguns livros que colocam situações para que a criançada comece a perceber a perda. “O Menino Maluquinho”, por exemplo, conta a história de um personagem do Ziraldo que passou por um momento desses com a morte do seu avó. Outro livro do tema é “Quando vovô virou borboleta”, de Luiz Galdino. Já a sugestão da Estante desta semana (confira na página 9), conta a perda de uma irmãzinha, que se transforma em luz, em flor.

Bom, cada um pode entender e sentir como preferir. A verdade é que os familiares são os mais indicados para ajudar a tirar as nossas dúvidas, mas eu deixo uma aqui para vocês: será que vamos todos virar borboletas? Um beijinho e boa vida!

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Morte é personagem de história em quadrinhos

A personagem Dona Morte, da turma do Penadinho, faz muita gente se divertir com suas aventuras. A Dona Morte anda sempre com seu capuz preto e uma foice na mão. Ela é um dos personagens mais importantes das histórias do Penadinho.

A Dona Morte é quem se encarrega de trazer os fantasminhas para o cemitério. Persegue os que estão na sua lista de pessoas que devem passar desta vida para outra.

Mas apesar de sua aparência um tanto assustadora, ela é sensível e, muitas vezes, poupa algumas pessoas do seu fim.

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