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Descartes e mais descartes


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Vale considerar-se plenamente que o progresso unipolar vem se tornando uma ampla sementeira de descartabilidades, pois já se lhe debita uma como que montanha de descartes, os quais conduzem as populações ao consumismo, criação de desejos artificiais, invenções degenerativas e até mesmo destruição de valores históricos, como os que vão escurecendo até as religiões, nelas descartando verdades, dogmas, ritos e símbolos. Conseqüentemente, estão eles tornando transitório, passageiro, tudo-tudo que parecia permanente e insubstituível. Pretenderiam os leitores descartes maiores que os dos amores, entre homens e mulheres, aí deixando sua perenidade para as grandes calendas? No primeiro instante em que apareça um novo amor é ele substituído, imediatamente, por outra oferta, mais bonita e atraente, como que negócio comercial, tipo promocional.

Em vários países a temática é a mesma, mas no Japão até os automóveis são descartáveis, depois de cinco anos e em outras nações os de 7 a 10 anos de fabricação. Lembre-se de que o problema já atingiu inclusive a arquitetura moderna, percebendo-se que hoje em dia edifícios e residências vão sendo construídos com a perspectiva de serem substituídos por outros dentro de uns poucos anos, o que acontece nem sempre pelo desejo de algo “mais moderno”, mas pelo sentido de novos lucros. Lemos em uma revista, que comentava o assunto, que, surpreendentemente, até as seringas de vidro, que eram utilizadas para vários casos sucessivos, vêm se tornando descartáveis com apenas um uso e, em hospitais gerais, também os termômetros tradicionais estão entrando na moda dos descartes. Nem os tais escapam da sorte ou do azar dos semelhantes. Deduz-se, por isso, que a secular era do perpétuo ou do duradouro caminha para o epílogo, tendo como herdeiro o substituível inserido de forma fugidia no espaço do cotidiano e, a passos largos, mudando a cultura diametral de outros tempos, regendo sutilmente o comportamento das comunas neste universo que, sem dúvida alguma, não foi concebido por Deus com tamanhos rasgos de inovações. É a nossa opinião.

O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

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