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Insensibilidade da burocracia


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Um dia a gente começa a sentir que está a percorrer os caminhos da volta, em busca das raízes, de nossa infância. Imitando os elefantes. Segundo os entendidos, depois de velhos, eles procuram sempre os lugares onde nasceram. Péricles recitava que a “a juventude é com o vento” - juventus, ventus. Virgílio chamava o tempo de “devorador de todas as coisas”. Não há como retardá-lo. Melhor então aproveitá-lo o quanto possível. A partir de um determinado momento, você passa a ser uma estatística. Se tiver 90 anos ou mais, tem que estar morto. Caso contrário torna-se uma fraude contra o Instituto Nacional do Seguro Social, mais conhecido por INSS. Suspenda-se o pagamento das aposentadorias. Os macróbios que teimam em sobreviver que compareçam à repartição, subam escadas e enfrentem filas para provarem que estão vivos.

Segundo o ministro da Previdência Renato Berzoini, um dos membros da guarda pretoriana do Lula, existem 105 mil velhinhos nessa faixa de idade recebendo proventos. Nas suas estimativas, 30 mil já teriam morrido. Por isso, a ordem de suspensão dos benefícios, sem aviso prévio. Foi a maneira burocrática que ele encontrou para acabar com o rombo do INSS, assaltado permanentemente por uma orda de matusalens. Minha mãe, que tem 93 anos, sempre aconselhava: “É melhor sofrer uma injustiça do que cometê-la”. Se não andasse tão “esquecida”, talvez repetisse as Odes de Horácio: “Torna-se mais leve à paciência tudo o que não é permitido remediar”.

Lembro-me do José Paulo Cavalcanti Filho, notável advogado do Recife que um dia visitei com o saudoso Miziara, seu amigo de Maçonaria. Ele dizia, meio brincando, que o homem tem na vida cinco idades: 1.a não conhece ninguém e ninguém lhe conhece; 2.a conhece todo mundo mas ninguém lhe conhece; 3.a conhece todo mundo e todo mundo lhe conhece; 4.a todo mundo lhe conhece mas ele começa a não saber quem são os outros (sinto que estou mais ou menos nesta fase) e, 5.a aquela idade em que o homem novamente não conhece ninguém e ninguém lhe conhece. Nem o INSS. Tia Nicota (ah, o cheiro das suas broinhas servidas no café!) era mais prática: “Velho é quem é mais velho do que eu”. Morreu aos 97 anos.

Há muitos anos, o estimado Jacó Tó - a esta altura pulando nuvens no céu com o Miziara - invadiu a redação falando alto sobre uma notícia envolvendo o seu nome. Desculpei-me. Se tivesse me avisado, não permitiria que fosse noticiado o seu acidente. Afinal, uma banalidade porque houve apenas “ligeiras escoriações”. Assim se dizia na época. - Nada contra a publicação - tentou explicar já mais calmo. O que eu reclamo é do título: “Sexagenário atropelado na Batista”.

Este é o País em que vivemos. Preconceituoso. Injusto. Onde servidores e aposentados são tratados como vadios e vilões do déficit público, responsáveis pela inflação. Recorde-se que há pouco mais de um mês foi sancionado o Estatuto do Idoso que deveria ser um Instituto capaz de devolver ao velho (por favor, jamais me chamem de idoso) a dignidade e o respeito merecido. O INSS responde quase de imediato à lei recém-publicada com a frieza da determinação burocrática, indiferente às dificuldades físicas e ao desespero de quem não pode ficar sem o seu remédio.

Na outra ponta também a situação é a mesma. Talvez pior. As crianças. Um grupo até menos favorecido da sociedade brasileira, pois 45% dos indigentes do País têm menos de 15 anos de idade. Aqui em Bauru, 3.500 crianças carentes aguardam vaga em creches que não podem acolhê-las porque o prefeito tem outras prioridades. Que também não incluem os velhos. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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