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Compulsão por comida camufla doença

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

Somente um prato de arroz com feijão não basta. Um pacote de biscoitos é pouco. Dois litros de refrigerante durante uma refeição ou em frente à TV acabam rapidamente. Estes são comportamentos que algumas pessoas podem chamar de gula ou exagero. Para outras, no entanto, isto é uma doença, a compulsão por alimentos. A compulsão mina a auto-estima e afeta até mesmo o convívio social. Com a intenção de encontrar a cura para o problema, um grupo de pessoas fundou em Bauru, no início deste ano, o grupo de Comedores Compulsivos Anônimos (CCA).

O grupo funciona no mesmo modelo dos Alcoólicos Anônimos (AA) ou Narcóticos Anônimos (NA). Um programa com 12 passos é apresentado para que os comedores compulsivos possam entender que têm um problema, assumi-lo e buscar sua cura, com o controle da cumpulsão.

A representante de distrito do CCA em Bauru, Sílvia (nome fictício), afirma que a compulsão alimentar deve ser tratada como um problema emocional e espiritual, e de conseqüências físicas. “O comer compulsivo é uma doença sem cura. Quando conseguimos paralisá-la, chamamos de abstinência. É aí que começamos realmente a ter contato com nossos sentimentos, e descobrimos quais são as emoções que nos levam a ter compulsão por algum alimento”, explica.

No CCA, assim como em outros grupos, o anonimato é obrigatório, para assegurar a intimidade de cada participante e evitar que seu problema seja exposto sem seu consentimento.

Gatilho

Segundo Sílvia, normalmente cada pessoa tem um alimento-chave, como um gatilho que dispara sua compulsão. A partir daí, ela pode sentir grande vontade de ingerir mais daquele alimento ou abrir seu apetite para diversos alimentos, em grande quantidade.

A maioria dos participantes do grupo consegue identificar seu alimento-chave. Sílvia comenta que o grande vilão, na maioria das vezes, são os doces. Porém, dentro do CCA, é aconselhado que se evite citar os alimentos, assim como no AA os participantes evitam falar de bebidas alcoólicas. “Evitamos porque uma pessoa que ainda não está preparada, no começo do programa, pode ter sua compulsão disparada ouvindo falar daquele alimento”, alerta.

Outras pessoas têm o atitude de comer diversos alimentos diferentes, em pequenas ou grandes quantidades, seguidamente. São compulsivos que não se satisfazem com a ingestão de um salgado, por exemplo. Depois de comê-lo, eles procuram algo doce, e depois algo salgado e assim continuam, sem sentir-se saciados.

Comportamentos assim encontram sua origem principalmente em problemas emocionais. Sílvia assume que o compulsivo encontra motivos para sentir-se confortável em suas atitudes. “A pessoa tem um alimento que a anestesia, naquele momento em que ela passa por uma situação. Pode ser alegria, tristeza, se o time ganha ou perde, se está sozinho ou acompanhado, se o dia está feio ou bonito. Tudo se torna um falso motivo para comer”, explica.

Ela lembra também que a auto-estima dos compulsivos, em praticamente 100% dos casos, é muito baixa. “Ele se olha no espelho e nunca se gosta. A doença chega ao ponto da gente achar que não tem qualidade nenhuma. Mesmo para assumir que você tem uma doença, é muito duro”, declara Sílvia.

Além de encontrar motivos para alimentar sua doença, a compulsão também provoca a fuga da cura. “A gente fica sem noção do alimento e da quantidade que estamos comendo. A doença desenvolve esse comportamento, a gente passa a fazer tudo de maneira atropelada, se reflete em todas as áreas da vida”, diz.

O CCA aconselha seus participantes a procurar um aconselhamento médico ou nutricional, juntamente com o programa, para a elaboração de uma dieta apropriada para o compulsivo.

Dentre os 12 passos do grupo, há uma grande orientação para a busca da espiritualidade, dentro da crença de cada participante. Além de controlar sua doença, o CCA tenta também mostrar um caminho, numa cura de dentro para fora, em que os doentes têm também que procurar as pessoas a quem eles acham que prejudicaram ou magoaram em razão de sua compulsão.

“É unânime: uma pessoa só entra no grupo e assume o compromisso consigo mesma quando ela já chegou ao fundo do poço, quando ela não se agüenta mais olhar no espelho e percebe que tem alguma coisa séria que está errada”, conclui Sílvia.

Serviço

O grupo Comedores Compulsivos Anônimos (CCA) reúne-se toda quarta-feira, a partir das 20h, em sua sede, que fica na quadra 12 da rua Bandeirantes.

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