Regional

Raspas de couro poluem solo e água

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Bocaina (69 quilômetros a Leste de Bauru), a capital da luva de raspa de couro, sofre com a poluição ambiental. As sobras das raspas de couro, até pouco tempo, cerca de três anos, eram simplesmente depositadas em algum matagal, preferencialmente em canaviais e áreas rurais.

Sob sol e chuva, o material expele um caldo, mais conhecido como “chorume”, que contamina o solo e a água. Para resolver o problema, várias alternativas estão sendo tentadas, mas as fábricas de fundo de quintal continuam jogando os restos nos canaviais, como ficou constatado durante a reportagem.

A situação já esteve pior. No ano 2000, foram enterrados mais de 500 caminhões lotados de raspas de couro nas proximidades da propriedade rural de Sylvio Simões de Camargo. Quando chove, o chorume vem a tona. O líquido azulado escorre pelo terreno e pode atingir algum manancial.

O efeito chorume não deixa nascer qualquer tipo de planta nos locais, explica o fazendeiro. “Nos locais onde foram enterradas as raspas, nunca mais nasceu coisa alguma. O pasto está todo queimado.”

Camargo reclama da falta de fiscalização. “Este ano apareceu raspas de couro em vários locais. O lixo das fábricas de calçados também está sendo jogado nos canaviais e propriedades rurais”, revela.

O fazendeiro, que já denunciou diversas atitudes contra o meio ambiente, fez um acordo com a prefeitura. “Eles se comprometeram em perfurar um poço e a plantar grama, mas o mais necessário era proibir que pessoas irresponsáveis jogassem a raspa de couro em locais não adequados.”

O prefeito Moacir Donizete Gimenez garante que está fazendo a tarefa de casa. “A prefeitura tem ajudado todos os segmentos e está tentando resolver o problema do lixo do couro em Bocaina.”

Na cidade há de 80 a 100 indústrias de acabamento de couro para luvas. As primeiras fábricas foram instaladas há mais de 20 anos e os restos nunca tinham sido retirados, diz o prefeito. “A situação foi se agravando até formar um montante de lixo muito grande.”

De acordo com ele, a prefeitura tem feito o possível para amenizar o problema. “Foi formada uma associação de coureiros e 90% do lixo de Bocaina foram mandados para um aterro sanitário na cidade de Paulínia.”

Uma outra alternativa para dar fim às raspas de couro e evitar a contaminação do solo e da água foi a instalação de uma usina de reciclagem, explica Camargo. “É uma empresa particular que tritura as raspas e vende para uma fábrica de telhas em Goiânia. A fábrica usa o material na confecção de telhas.”

No passado, a prefeitura tomou atitude incorreta, admite o prefeito. “Foi feito um aterro de couro. Nesses locais foram construídas valas. Em alguns desses lugares, o solo foi forrado com plástico, sempre com a preocupação de não ser perto de mananciais.”

A situação foi momentânea, se desculpa Camargo. “Foi para resolver naquele momento. Nem é permitido. O Ministério Público e a Cetesb não aceitaram. A partir daí, formou-se a associação e iniciamos a retirada do lixo para o aterro de Paulínia.”

O prefeito alega que a fiscalização é difícil. “A prefeitura é pequena. Temos um fiscal para todos os segmentos. Não temos como saber onde e quando as pessoas vão jogar lixo de couro.”

Ele ressalta que, se alguém for pego jogando lixo de couro em qualquer parte do município, será encaminhado para a delegacia. “Esta é a nossa orientação. A pessoa sofrerá as penas da lei. Quando recebemos uma denúncia, fazemos a retirada do lixo.”

Nem todos são associados

Para o presidente da Associação das Indústrias de Couros, Fabricantes de Artefatos e Afins do Município de Bocaína, (Associcouro), Fauzer José Saffi, das cerca de 100 fábricas só 80 são associadas. “Os associados estão enviando as sobras para Paulínia. Os demais, não sei que destino estão dando.”

Ele acha que os associados estão sendo prejudicados pelo comportamento das fábricas de fundo de quintal. “Toda vez que se encontra lixo de couro em alguma local, nós somos acionados. Nós temos provas que as raspas de couro dos associados estão chegando no aterro em Paulínia.”

Saffi pede que a fiscalização seja intensificada. “Nós não temos como fiscalizar. A prefeitura, a polícia e o Ministério Público precisam identificar quem são essas empresas que estão despejando o lixo em locais inadequados e cobrar delas.”

Na opinião do presidente, a retirada do lixo de couro aumenta os custos. “Encarece o produto. As 80 empresas gastaram aproximadamente R$ 1 milhão para limpar a cidade no início deste ano. De abril a maio, mais de 6 mil toneladas de sobras foram retiradas da cidade. ”

Num primeiro momento foi retirado o material que cada empresa tinha depositado. “O transporte é feito, atualmente, a cada 60 dias. A crise que atinge o setor não exige que a retirada seja feita com mais freqüência. As fábricas e curtumes embalam os restos até atingir uma quantidade que justifique o envio.”

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