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A vez da ferrovia (e de Bauru)


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A ferrovia nasceu na Inglaterra há 202 anos. Chegou no Brasil, em 1854, graças à obstinação do Barão de Mauá, o grande empresário da época. Um século depois, anos 1950, o Brasil tinha quase 40.000 km de trilhos e alguns de seus trens trafegavam com pontualidade impecável, permitindo o acerto dos relógios pelo apito das locomotivas. A excelência não ficava só nisso, mas estendia-se ao conforto dos vagões e a qualidade dos serviços oferecidos aos usuários.

Tudo é passado. A realidade está estampada nas duas reportagens publicadas pelo JC nos últimos dias 2 e 5, passados. A primeira assinada por Gilmar Dias, divulgando conclusões de um relatório da Agencia Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), de maio passado, sobre a Novoeste sucessora da RFFSA em Bauru. A outra com o ex-deputado Carlos Braga desancando o estado lamentável das ferrovias. O que foi dito, em ambas as matérias, é a mais pura verdade.

Nós, brasileiros, nos últimos 50 anos demos à ferrovia só desprezo. Os norte-americanos, europeus e japoneses prestigiaram a ferrovia com investimentos maciços e, hoje, possuem trens que levitam sobre trilhos e atingem velocidade de avião. Nossa saga culminou, em 1996, com a privatização tucana que foi um fiasco. O sistema de concessões, ao estilo “casa da mãe Joana”, conseguiu piorar aquilo que já estava ruim.

No final de outubro, o presidente da ANTT, José Alexandre Resende, em entrevista coletiva, repete o exposto no relatório de maio, dizendo que a situação da Novoeste é de “desequilíbrio econômico-financeiro” e “o problema é funcional”. Acrescenta, que “essa situação é passageira e estará sendo equacionada a partir do início de novembro”. Resende fala da Brasil Ferrovias, formada pela Novoeste, Ferroban e Ferronorte, que tem como maiores acionistas os fundos de pensão Funcef (Caixa Federal) e Previ (Banco do Brasil) e afirma que “o Brasil pela primeira vez em décadas vai investir mais em ferrovias que em rodovias”, serão R$ 4 bilhões de investimentos nos próximos 2 anos. Para quem estava listado no fome zero de investimentos e em 2002 encolheu 23,2% frente a 2001, esse valor é um ótimo dinheiro.

Há sinais de luz no fim do túnel para os que acreditam no milagre da ressurreição. Óbvio, vai demorar mais que os três dias que Cristo levou para ressuscitar, mas pelas notícias que tem gotejado na mídia dando conta do envolvimento do governo para recolocar as coisas nos trilhos, o milagre vai acontecer. O BNDES tem liberado recursos às indústrias do setor e, mais, transformou um crédito que possuía na Ferronorte, de R$ 400 milhões, em participação acionária. Agora, neste 17 de novembro, o presidente Lula vai a Bolívia e anunciará a criação do corredor ferroviário Atlântico-Pacífico, ligando Santos a Antofogasta (Chile), passando por S. Cruz de La Sierra (Bolívia). Essas medidas visam melhorar o desempenho de um setor que pesa na composição de preços dos produtos de exportação que ora sustentam a barra da economia.

A implantação definitiva do corredor Atlântico-Pacífico é uma boa notícia para o Brasil e uma ótima notícia para Bauru e região. Trata-se de luta antiga das cidades servidas pela Noroeste. Lula vai acompanhado de empresários pesos-pesado e do governador do Mato Grosso do Sul, partes diretamente interessadas. Essa delegação poderia ser engrossada com bauruenses (somos parte interessadíssima). Quem sabe no retorno gritariam: “alvíssaras, terra à vista”. Já é hora. (O autor, Tidei de Lima, é engenheiro civil, ex-deputado federal, ex-secretário da Agricultura e ex-prefeito de Bauru)

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