Cultura

O segundo filho dos Strokes

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

Julian Casablancas começa o disco gritando que quer ser esquecido, que não quer ser lembrado. Parece, mas não é um recado aos seus fãs ou à fama em si. Não estamos diante de um Kurt Cobain precoce, cansado da súbita badalação em torno de sua vida desde sempre tão fora dos eixos. Aparentemente, Julian não pretende meter uma bala na cabeça. Mas Julian e Kurt são igualmente geniais e, como ninguém além deles em seu tempo, porta-vozes de coisas que ainda não haviam sido ditas e feitas - isso é inegável.

Dois anos e muita expectativa depois, The Strokes estão de volta, e não é prematuro dizer que foram aprovados com louvor no “teste do segundo álbum”. Algo que, no mundo da música pop, equivale a um atestado de sobrevivência. O álbum “Room on Fire”, recém-chegado às lojas, mantém o sabor de novidade do disco de estréia, “Is This It”, e engata, de primeira, uns dois ou três hits demolidores.

A faixa “12:51” já está sendo executada com certa freqüência nas rádios e deu origem a um clipe cheio de estilo, numa linha, digamos, retro-futurista. E é nesta sonoridade que Julian e seus companheiros - só por diversão, eles dizem - resolveram investir.

Músicas que, ao mesmo tempo, resgatam timbres envelhecidos e dão roupa nova às batidas new-wave. Ou letras que narram aventuras amorosas, desencontros e solitárias noites de sexta-feira com um sotaque de doce inocência, meio James Dean. A canção “Meet Me in the Bathroom” (“Encontre-me no Banheiro”) seria um exemplo adequado.

Ouvindo o disco, dá-se a impressão de que pouca coisa mudou. Isto é, algumas músicas do primeiro e do segundo álbum poderiam trocar de lugar sem prejuízo algum. Por um lado, é uma constatação positiva: os Strokes conseguiram criar uma identidade, tornaram-se uma entidade inconfundível. Pode-se ouvir ecos de Iggy Pop ou de Joy Division nas canções, mas até os mais desavisados percebem que é Strokes.

O lado ruim é que estão numa seara perigosa: o risco de se transformarem em caricaturas deles mesmos. Por exemplo: “Ah, lá vem outra baladinha xarope do U2”.

Mas há talento e inteligência suficiente nos Strokes para evitar essa vala. Há tempos que não aparecia uma bateria tão vigorosa como a de Fabrizio Moretti, o tal que é brasileiro e namora a pantera Drew Barrymore. Na linha de frente, a guitarra de Nick Valensi é das mais inteligentes e criativas da música atual, sem espaço para virtuosismo, e ombro a ombro com veteranos como Tom Morello (Audioslave) e Dave Navarro (Jane’s Addiction) e o menino-prodígio Jack White (White Stripes).

Há também espaço para novas experiências e variações mais ousadas, como a surpreendente balada “Under Control”, gravações mais “sujas” estilo punk dos anos 70, como “Reptilia”, e até uma levada reggae em “Automatic Stop”.

Manhattan

Não dá para esquecer que os Strokes vêm de Nova York, onde a maioria dos integrantes morava na ilha de Manhattan. Vêm de famílias abastadas e nunca se interessaram muito por coisas pouco úteis, como cursar uma faculdade. Pois bem, começou o folclore.

Julian é filho de John Casablancas, dono da agência Elite Models. Não é o mesmo que ser filho de Hugh Hefner ou Larry Flint - deve ser melhor, mais “refinado”. Desde moleque, Julian foi acostumado a acordar e dar de cara com top models na piscina sua casa. Por conta disso, certa feita declarou ter perdido a noção do que é “beleza”.

Todos os Strokes mantêm um estilo “tô nem aí”. Usam paletós de brechó com tênis All Star e cultivam cabeleiras desalinhadas. São objeto de desejo das meninas e heróis dos meninos. Mas nada soa falso, aí é que está. Outro dia, uma garota de 14 anos disse a este repórter que mesmo quando se está muito triste, não dá para não ficar feliz ao ouvir Strokes. Julian, autor de todas as letras, fala ao coração. Sabe-se lá onde ele aprendeu isso, mas é fascinante.

Nova York é um mundo de gente de todos os cantos do mundo, empresários da moda, executivos, investidores, artistas, intelectuais. Encontrar amor e sexo em Manhattan parece ser fácil, assim como deve ser fácil ser esquecido ou rejeitado.

Cantar coisas verdadeiras e tocar de maneira simples dentro de uma porta giratória de emoções e ilusões foi o caminho que os Strokes - sem querer? - escolheram seguir. “Room on Fire” não é uma obra-prima como o primeiro disco, são apenas 33 minutos inesquecíveis e assobiáveis.

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