Economia & Negócios

Compromisso social atrai empresas

Diego Molina
| Tempo de leitura: 3 min

Após a criação de certificados de qualidade de produção e de responsabilidade ambiental, agora os empresários buscam melhorar sua imagem perante a sociedade ao assumir um compromisso social e oferecer a seus funcionários condições mais dignas de trabalho.

Por conta disso, o diretor da empresa norueguesa de certificação Det Norske Veritas (DNV), Samuel Barbosa esteve nesta semana em Bauru para divulgar o Certificado de Responsabilidade Social (SA8000), que pode ser obtido por organizações que se adequem a aspectos socias.

O SA8000, criado em 1997, é de origem americana e observa requisitos na empresa que vão desde a erradicação do trabalho infantil, saúde ocupacional e segurança, ao direito à negociação salarial, horário de trabalho e remuneração.

“O certificado é adotado internacionalmente com o objetivo de estabelecer rotinas que interliguem a administração da empresa, os trabalhadores e os colaboradores, para evitar práticas desumanas no trabalho”, afirma Barbosa. Os produtos da organização recebem um selo com a identificação do certificado.

Atualmente, cerca de 260 empresas no mundo possuem esta qualificação. No Brasil, 36 instituições já se adequaram aos padrões do SA8000, que é controlado pelo Social Accountability International (SAI - Responsabilidade Social Internacional). Bauru ainda não possui nenhuma empresa certificada.

Barbosa explica que as normas surgiram dez anos depois do certificado de qualidade de produção da Organização Internacional de Padronização (ISO), no momento em que as empresas já estavam disciplinadas ao uso de procedimentos para diminuir erros e agilizar a produção.

“A mola precursora (do SA8000) foi uma notícia bomba de que a Nike utilizava trabalho infantil na Ásia para fabricar tênis. Com isso, a Nike perdeu, de um dia para o outro, quase 35% do mercado”, conta.

Auditoria

Para uma empresa obter o certificado, deve requisitar a visita de uma auditoria qualificada pela SAI. Os diretores e funcionários passam por uma série de visitas e entrevistas que procuram traçar seu perfil social e comportamental, e a auditoria aponta os melhores caminhos para a transição em uma organização que obedeça às características de comprometimento social.

“A empresa tem um tempo para se adequar. Os auditores podem perceber que ela tem planos de transição que podem levar meses ou anos, e por isso ela é reauditada a cada seis meses, para verificar o andamento do plano. No entanto, o certificado pode ser recolhido a qualquer momento”, explica Barbosa.

As normas do SA8000 contemplam, por exemplo, que o trabalho infantil em uma instituição não seja erradicado abruptamente. “No Brasil e na Ásia, há famílias que dependem da criança que trabalha. Se a norma for aplicada e erradicar o trabalho infantil, o problema da empresa estará resolvido, mas cria-se um problema social”, diz.

Neste caso, de acordo com o diretor da DNV, o ideal é realizar as mudanças no cotidiano da organização de maneira suave, dependendo dos equipamentos disponíveis, do número de crianças e adolescentes e outra série de fatores. Nenhuma norma do certificado impede que a criança ou o adolescente tenha seu trabalho remunerado, dentro de um programa de aprendizagem monitorada que contribua para a renda da família.

Brasil

No Brasil, a empresa Det Norske Veritas ainda não conseguiu apontar a maior dificuldade encontrada na busca pela qualidade social. As 16 empresas já certificadas pela auditoria apresentaram problemas trabalhistas, funcionários com dificuldade em se associar a entidades de classe e discriminação salarial por conta de sexo ou raça, segundo o diretor Samuel Barbosa.

“Outra teve problemas de trabalho infantil, e havia uma pendência judicial. Enquanto estiver respondendo a um processo, a empresa não pode receber o certificado”, diz.

O comprometimento social de uma organização certificada pode ainda se estender a seus fornecedores. Algumas instituições dão preferência para empresas que sejam também socialmente responsáveis, que ganham vantagem competitiva sobre outras.

Assim como o certificado de qualidade de gerência e produção busca vantagens econômicas, os certificados de comprometimento social e ambiental dão à empresa um rótulo positivo. “A organização é voluntária no processo. Quando as rotinas começam a ser implementadas, a diretoria sabe que as coisas vão mudar, mas já esperam isto. Pode ser que surjam surpresas, mas a mudança é recompensada”, conclui Barbosa.

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