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Abobrinhas


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Tempos atrás recebi carta de leitor anônimo dizendo estar “farto de abobrinhas”. Faltaram explicações sobre o porquê dessa ojeriza a essa espécie de cucurbitácea de polpa comestível. Seria por causa do tamanho não superior a vinte centímetros? Existem abóboras de mais de dois metros e 50 quilos de peso. No nordeste a chamam de Jerimun. Há também a abóbora do mato, que é purgativa. Minha mulher, excelente cozinheira, sabe preparar abobrinhas muito bem. Refogadas, recheadas à moda árabe, com farinha de milho ou apenas cozidas com sal e servidas frias na salada de alface.

Meu insatisfeito leitor, evidentemente, referia-se ao popular “falar abobrinha” no sentido de “conversa fiada”. Saudades da cédula antiga de mil cruzeiros também chamada de “abobrinha”, por causa da cor. O dicionário registra “abóbora”, em sentido figurado, como sinônimo de panaca. Sinta, até onde vai a utilidade da abobrinha, inclusive no enriquecimento da linguagem popular.

Isso tudo me remete à primeira aula de Filosofia que tive no Clássico, um curso de segundo grau que não mais existe. O professor era baixinho, usava terno amarfanhado e gravata sebenta, óculos de lentes grossas que tornavam seus olhos estranhos. O nome dele era complicado. Algo parecido com Kovalovsky. Começou dizendo: “Quero lhes comunicar que sou professor de Filosofia. E que filosofia não serve para nada”. Diante da perplexidade dos alunos, emendou: “Peço-lhes apenas alguns minutos de atenção que vou explicar o que é “nada”, ou seja, filosofia.” Assisto aulas até hoje e nunca recebi uma lição melhor do que aquela dada por aquele estranho professor. Mudou minha vida. Desde então nunca parei de perseguir o nada, ou seja, abobrinhas.

Outro dia aluno meu disse num exercício de redação que “a poesia não serve para nada”. Em um planeta Bush conturbado por explosões e atentados suicidas, onde ainda se constróem muros para separar homens e culturas, para aquele jovem inconformado, a poesia não teria mais lugar. Por mim, acho que a poesia ainda pode congregar vozes e esperanças porque é capaz de comover. Sua linguagem é universal. Chomsky, o grande cientista da linguagem, conta a história de um colega presente a um festival que reunia poetas do mundo inteiro para dizer seus poemas, cada um na sua língua. Sem entender a maioria dos idiomas ele foi capaz de dizer quais os melhores e quais os piores poemas. Até apontou quem seria o vencedor. Não deu outra...

A poesia, como arte, não morre nunca, porque mais que um gênero literário, é uma forma de expressão imprescindível à mente humana. Assim também a abobrinha utilizada na culinária do mundo inteiro há dois mil anos por ser um alimento de sabor delicado, de digestão fácil, possível de ser cultivada em qualquer quintal e da qual se aproveita a casca e até as gemas onde se desenvolvem as sementes, as cambuquiras, que dão bolinhos deliciosos. Fernando Pessoa ele-mesmo – ou Fernando Pessoa ortônimo – escreveu que “Temos, todos que vivemos,/ Uma vida que é vivida/ E outra vida que é pensada,/ E a única vida que temos/ É essa que é dividida/ Entre a verdadeira e a errada.” A poesia é a vida pensada.

Li de uma sentada a Antologia dos membros da Academia Bauruense de Letras. A maioria poetas. Tive que parar algumas vezes para enxugar lágrimas de emoção. Lamento não saber ser poeta. Depois de décadas de jornalismo estou ficando cansado de falar nas mazelas da sociedade. A abobrinha talvez seja um refúgio.

Ainda bem que em matéria de abobrinha, poesia e filosofia, nada se perde. Ensinou o meu professor que o nada se cria e o nada se transforma. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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