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"Refletir sobre o Brasil é dever cívico"

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 10 min

Bauruense nascido em 1956, o jornalista e chargista Luciano Dias Pires Filho assistiu de perto os efeitos da ditadura militar quando, na década de 70, cursava comunicação na Universidade Mackenzie. Durante o período, viu colegas serem presos, outros sumiram e isso aguçou seu já aguçado senso crítico, construído ao longo dos anos de convivência com uma turma de amigos em Bauru e pela leitura ávida de livros, muitos deles sobre grandes aventureiros.

Pois bem, no início do novo século ele se tornou um deles ao partir para o Nepal, onde escalaria o Everest. A aventura, definida como “loucura” pelos colegas de uma multinacional onde hoje atua como diretor de comunicação corporativa, virou livro (“O Meu Everest - realizando um sonho no teto do mundo”) e hoje está na segunda edição, depois de 5 mil exemplares da primeira terem sido esgotados em 82 dias – um feito para quem está fora da mídia.

E é a mídia o alvo de seu novo livro, “Brasileiros Pocotó”, um conjunto de artigos e charges em que Pires Filho discute a mediocridade, como a ‘Egüinha Pocotó’, fenômeno de massa que detonou no jornalista a vontade de exercitar seu “dever cívico”, que seria propor reflexões sobre o Brasil, seus problemas, riscos e oportunidades.

Em entrevista ao JC por ocasião de seu novo livro, há um mês, Pires Filho fala de suas obras, do mercado editorial, da mídia e de Bauru, que define como “fantástica, mas tímida”. Ele também rejeita a definição de auto-ajuda atribuída a seu primeiro livro. “Não quero o rótulo de guru espiritual. Fiz uma reportagem, eu sou jornalista e cartunista, que, como você sabe, gosta de cutucar.”

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Você repetiria a aventura de escalar o Everest?

Luciano Dias Pires Filho - Não repetiria necessariamente para lá. A vida da gente é muito curta para fazer uma loucura como essa duas vezes. Se for para lá, irei pelo Tibet, por outro caminho. Além disso, há um leque enorme de opções. Pretendo viajar para um lugar que faça parte do meu imaginário, mas esta não é a minha prioridade no momento.

JC - Qual é a sua prioridade atual?

Pires Filho - Lançar meu segundo livro, “Brasileiros Pocotó”. São textos e cartuns sobre o Brasil, falando da sua mediocridade e que publico na Internet. Toda sexta-feira eu solto um artigo na rede e explode pelo País afora. Tem um retorno superlegal, sendo até lido por algumas rádios de São Paulo.

JC - Este livro foi planejado?

Pires Filho - Planejadinho. O outro, “O Meu Everest...”, saiu na curtição. O segundo não. No final do ano, tinha mais de 100 textos e pensei: ‘- Dá livro’. Aí, preparei uma obra de mais de 300 páginas.

JC - Como surgiu a idéia de escrevê-lo?

Pires Filho - Num fatídico domingo de fevereiro de 2003, quando o Gugu coloca no ar a tal da Egüinha Pocotó e fica o dia inteiro passando aquela coisa pavorosa. À noite ele reprisa, um horror. No dia seguinte, escrevi um texto chamado “Eguinha Pocotó”, questionando o que estava acontecendo no Brasil e soltei na Internet. Virou febre. Milhares de pessoas receberam, foi lido nas rádios e até o SBT respondeu para mim. Foi um impacto tão grande que pensei: ‘- A discussão sobre a mediocridade do Brasil está em pauta!’.

JC - Qual a tiragem do livro?

Pires Filho - Estou abrindo com 5 mil exemplares e tenho a expectativa de esgotá-lo rapidamente. Vai ser um livro mais barato, com um sistema de distribuição diferenciado.

JC- Diferente do primeiro livro.

Pires Filho - Sim. “O Meu Everest...” eu fiz pelo caminho tradicional: procurei uma editora com o livro pronto, editado num CD, diagramado e com as fotos. A distribuição também foi feita pelo sistema tradicional. Foi a primeira vez que lidei com o mercado de livros e foi uma decepção brutal, porque o sistema é jurássico. O autor faz o livro, não ganha nada, a distribuição – ineficiente – come todo o dinheiro. Você vai às lojas e o livro é tratado como pé de alface: bota lá, tira ali, bota aqui. Se seu sobrenome não é Veríssimo, Soares, Coelho ou Varella, hoje, esqueça, seu livro não fará barulho. Eles falam: ‘- Coloca ali, vamos ver se vende. Se vender, a gente investe’. Do contrário, enfiam o livro em qualquer cantinho, classificado como guia de viagem e “O Meu Everest...” é uma reportagem, não tem nada a ver com guia de viagem. No segundo, falei que não iria entrar nessa.

JC - Em qual edição está seu primeiro livro?

Pires Filho - Na segunda edição, com vendas regulares, o que é bastante positivo se lembrado que o livro foi lançado há mais de um ano e meio. A primeira tiragem, de 5 mil exemplares, esgotou em 82 dias. E a segunda já está acabando.

JC - Muito desse sucesso se deve ao fato das pessoas verem o seu livro como inspiração para concretizar sonhos.

Pires Filho - Minha caixa postal é uma loucura, cheia de mensagens de pessoas que encontram coisas que não escrevi no livro, porque escrevi uma reportagem, não uma auto-ajuda. Pelo amor de Deus, não é auto-ajuda.

JC - Os livros de auto-ajuda também se incluem entre as mediocridades?

Pires Filho - Totalmente. O que ocorre? Você entra numa livraria hoje e tem um monte de livros de ficção, um monte de livros de não ficção e uma pilha de livros de auto-ajuda. E o que são livros de auto-ajuda? Um livro pequenininho, com muita fotografia, letras grandes e custa R$ 8,00, vendendo milhões. Um livro mais consistente vende, se for um best seller de arrebentar, 300 mil, contra aquela porcaria do elefantinho lindo. O que significa isso? O livro é ruim? Não, mas sendo assim ele ocupa o espaço de todos os outros. Além disso, o rótulo do auto-ajuda foi totalmente destruído, com porcarias impublicáveis.

JC - O que é um livro de auto-ajuda para você?

Pires Filho - O bom ou o ruim?

JC - O bom.

Pires Filho - O bom é um livro que te faça refletir sobre seus processos internos. Ele não pode indicar caminho nenhum, fórmulas, mas te obrigar a pensar.

JC - Nesse sentido, a editora não agiu certo em definir seu primeiro livro como auto-ajuda?

Pires Filho - A editora olhou do ponto de vista errado. Estou contando uma história, é uma reportagem. Não escrevi para ninguém rever processos internos. Depois de lançado é que fui descobrir lá na frente que a minha história tocou muito aquelas pessoas que têm um sonho guardado.

JC - Diante de tantas pessoas que te procuram é preciso equilíbrio para que o sucesso não suba à cabeça.

Pires Filho - Claro, claro. Fico assustado quando recebo e-mails desse tipo e respondo procurando alertá-lo que aquela é a minha história. Fico felicíssimo de ter inspirado essas pessoas, mas não apresentei a história como se fosse um cara brilhante, mas como a história de um sonho guardado e difícil de ser realizado, mas que consegui concretizar por meio de uma viagem. Contei como é e concluí ser o máximo. É isso. O que você vai fazer daqui para frente é problema seu e não tenho nada a ver com isso. Não quero o rótulo de guru espiritual. Isto é uma reportagem, eu sou jornalista e cartunista, que, como você sabe, gosta de cutucar. Nesse sentido, acho interessante, daí entender que é uma contribuição cívica. Todas as pessoas que olham para o Brasil e se preocupam com ele devem fazer alguma coisa. E eu escolhi estar na Internet toda sexta-feira e colocar um artigo para chutar o pau da barraca.

JC - Essa experiência toda mudou a relação com seus amigos e parentes de Bauru?

Pires Filho - Não sei dizer, o que sei é que conheci um monte de gente aqui em Bauru em razão do primeiro livro e das palestras. Por causa deles, revi amigos que não via há muitos anos. Na empresa, sim. Antes, era o louco, alucinado, que tinha largado a família para cometer uma loucura. Depois que voltei, passei a ser o cara determinado, que faz o que promete.

JC - Você considera positivo ser uma referência em Bauru?

Pires Filho - Sim. Como tenho 47 anos e tenho os pés no chão, acho legal porque o Brasil precisa desesperadamente de referências. Por isso, qualquer pessoa em qualquer área de atuação e que tenha um canal de comunicação, que pode conversar e falar às pessoas que é possível fazer grandes coisas, deve tentar. Neste País perdeu-se tudo, as grandes referências estão morrendo e não estão entrando outras no lugar. Esse buraco está sendo preenchido pela mídia, que cria referências vazias como o Dhomini. O que é isso? Quem é esse cara? Não tem talento, não dá contribuição nenhuma, o que fez foi ficar com a japonesinha. Isso acaba colocando o barco à deriva. O negócio está tão raso que no futebol, por exemplo, qualquer garoto de 17 anos vira referência e ele é queimado em um ano.

JC - O que fazer para evitar esse processo?

Pires filho - Deve haver uma cultura de se formar referências sólidas. Estou criando conscientemente essa cultura. Quando coloco esse livro e sou chamado para dar palestra, não é o Luciano inconseqüente, mas estou naquele momento sendo referência, tenho responsabilidades e não posso sair por aí falando bobagens. Não quero que as pessoas achem nada, mas pensem. Penso isto. Penso aquilo. Esse é meu dever cívico. Gostaria de ver mais gente assim.

JC - Não há o perigo de parecer dono da verdade?

Pires Filho - Não chamo a referência de dona da verdade, mas aquela que incita o exercício, as suas responsabilidades. Os Estados Unidos estão cheios de referências e essas pessoas não abrem a boca para falar besteiras, seja uma máquina de fazer dinheiro, um escritor ou um jogador de basquete.

JC - Como você vê Bauru hoje?

Pires Filho - Não consegui entender qual é a vocação de Bauru. Quando moleque, era a cidade do Interior com maior entroncamento rodo-ferroviário do País. Se isso estivesse acontecendo hoje, deveríamos ser um grande centro de logística, mas isso se perdeu com o tempo. Mais tarde era o centro universitário, cheio de faculdades, e por isso deveríamos ter atraído todos os centros de pesquisa, como ocorreu com o Centrinho, que é referência mundial, mas isso também se perdeu. O mesmo ocorreu com o perfil industrial. O que Bauru é? O que Bauru quer ser? Não vejo essa discussão acontecendo nem um desenho sendo feito. Penso que é preciso aproveitar essa nossa vantagem estratégica de estar no coração de São Paulo e trabalhar para ser o centro do Estado em termos de logística, para daqui a quatro anos sermos irresistíveis nesse sentido. O que ocorre aqui - e também no Brasil -, me parece, é que as pessoas apagam incêndios e se esquecem que planos a médio e longo prazos devem ser concebidos e seguidos.

JC - Somente o poder público deve fazer isso?

Pires Filho - Não, a sociedade também. Mas não vejo isso ocorrendo, o que me preocupa, porque Bauru é uma cidade legal, fantástica, mas é tímida. E num mercado competitivo como o atual, ser tímida faz de Bauru invisível. E aí, quando Bauru aparece? Quando há coisas ruins ou aberrações ocorrendo. Por isso é necessário definir nosso perfil. Somos, por exemplo, um celeiro de jornalistas. Se isso funciona também com o Centrinho, funciona com qualquer outra área que a gente escolher. A questão é quando. Quem está conduzindo Bauru para esse futuro? É uma reflexão. Vamos discutir.

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