Cultura

Compositor exaltou a cultura nacional

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 3 min

Considerado um dos principais nomes do Carnaval e do teatro de revista do Rio de Janeiro, o cantor e compositor Ary Evangelista Barroso se destacou como uma das maiores personalidades brasileiras do último século. Além de músico, também era letrista, político, radialista, jornalista, advogado, locutor de futebol e apresentador de programa de calouros.

Ary nasceu em 1903, na cidade de Ubá, em Minas Gerais. Órfão aos 7 anos, passou a ser criado por uma tia-avó, com quem aprendeu a tocar piano. Aos 12 anos, já atuava como pianista nas sessões de cinema mudo. Com 18 anos, viajou para o Rio de Janeiro, onde começou a cursar direito, mas teve que interromper os estudos para trabalhar, fato que o levou a tocar piano em cinemas e cabarés cariocas.

Em 1929, Ary passou a compor para o teatro de revista - veículo de difusão de costumes criado no final do século 19 - e venceu um concurso para o carnaval seguinte, com a marchinha “Dá Nela”. Ao todo, ele escreveu mais de 60 peças do gênero.

O compositor estreou na Rádio Philips, em 1933, e comandou programas de sucesso que mais tarde o levariam à TV, entre eles, “Calouros em Desfile” e “Encontro com Ary”. Nessa época, iniciou carreira como locutor esportivo, atividade em que se destacou ao conferir um tom passional às transmissões.

Ainda nos anos 30, Ary compôs vários de seus clássicos, como “No Rancho Fundo”, “Faceira”, “Na Batucada da Vida”, “Morena Boca de Ouro”, “Camisa Amarela”, “Quando Eu Penso na Bahia” e “Na Baixa do Sapateiro” - que traduz sua ligação com a Bahia. Mas foi com seu maior clássico, “Aquarela do Brasil”, que o músico ficou conhecido no Exterior.

Gravada em 1939, a letra de ‘Aquarela...’ faz uma grande homenagem ao País. “Ary era muito boêmio e não parava em casa. E em um dia de chuva, ele teve que ficar em casa e compôs ‘Aquarela...’. Ao terminar, ele chamou seu cunhado, que falou: ‘Mas, Ary, coqueiro que dá côco?’. Aí, ele se levantou e deixou o cunhado falando sozinho. Muitas pessoas criticam esse pleonasmo, mas dessa forma, ele quis reforçar as belezas do Brasil”, analisa Lucila.

Principal representante do samba-exaltação, “Aquarela...” passou a figurar como hino nacional alternativo brasileiro e ganhou inúmeros prêmios internacionais. Nos Estados Unidos, a canção - entitulada como “Brazil” - foi trabalhada pelo compositor em parceria com estúdios Walt Disney, para o filme “Alô, Amigos”. Foi indicado ao Oscar, mas não levou a estatueta.

A política também atraiu a atenção de Ary. Eleito vereador em 1946, ele foi um dos principais responsáveis pela construção do estádio do Maracanã e lutou pela regulamentação dos direitos autorais. O compositor morreu em fevereiro de 1964, no Rio de Janeiro.

Álbum duplo

Este ano, em homenagem ao centenário de Ary, foi lançado um CD duplo, “Ontem e Hoje”, que reúne seus clássicos. Os mais antigo recheiam o álbum “Ontem”, que traz como primeira faixa, a música “Faceira”, de 1930. Gravada por Silvio Caldas, ela conta com breques - principal característica do trabalho do mineiro - e solos curtos de bateria.

Além de Caldas, o repertório inclui canções interpretadas por ícones da velha guarda, entre eles, Francisco Alves, Carmen Miranda e Aracy de Almeida. Já o disco “Hoje”, é recheado de artistas contemporâneos, como Gal Costa, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Novos Baianos, Nelson Gonçalves, Angela Maria, Fagner, João Bosco, Miúcha e Tom Jobim.

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