O Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado hoje, tornou-se um marco na luta contra a ditadura do “branqueamento”, que impõe à sociedade os valores da cultura branca em detrimento das outras. Embora o Brasil seja o segundo País mais negro do mundo, o afro-descendente continua negado enquanto cidadão, reclamam as entidades de combate à discriminação racial que atuam para reverter essa situação.
“Ele (o afro-descendente) é vítima da ideologia do branqueamento e não se sente como negro porque não tem uma identidade. Ele olha no espelho e se enxerga branco, porque foi pautado pelo mito da democracia racial”, explica o secretário de Política Social da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação, Duílio Duka de Souza.
Ele espera que o trabalho de conscientização desnude o racismo ainda escamoteado e faça com que o afro-descendente se assuma e se orgulhe da etnia.
“A busca pela estética branca traz conseqüências graves para o negro, que vê seus traços rejeitados e não espelhados nos veículos de comunicação. Talvez seja a forma mais cruel de racismo, que é a negação do outro”, diz o jornalista e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Ricardo Alexino Ferreira.
O professor defendeu a tese de doutorado “Olhares negros: estudo da percepção crítica de afro-descendentes sobre a imprensa e outros meios de comunicação”, na Universidade de São Paulo (USP).
Na opinião dele, a sociedade brasileira tem sido marcada pela negação da essência negra desde a segunda metade do século XIX, quando a abolição da escravatura foi decretada e o processo de “embranquecimento” do País foi iniciado. “A miscigenação era estimulada porque se acreditava que em algumas dezenas de décadas o Brasil se tornaria um País branco ou menos negro”, afirma.
Impregnados pela “ideologia do branqueamento”, alguns afro-descendentes se apresentam como negros ou são identificados como pardos, morenos e jambos.
Discriminação
“Ela (uma amiga) fala que eu sou morena e eu falo que sou negra. As pessoas usam outras terminologias (que não a negra) para fugir ou evitar a discriminação, que existe em todos os sentidos”, comenta Luzia do Nascimento.
Concorda com ela Elyn de Paula, para quem os afro-descendentes são levados a adotar padrões da cultura branca como referência para driblar o preconceito.
“A pessoa negra tenta se aproximar do branco até para mostrar que as diferenças sociais não são tão grandes. A minha mãe é negra e fala que não gosta de negro, ou melhor, que não tem sorte com negros nas amizades”, enfatiza Fernanda Batalha da Silva.
Embora admita que o posicionamento discriminatório é compartilhado por outros afro-descendentes, Adriano dos Santos garante ser diferente. Ele já participou de grupos que trabalham a consciência negra e assume com orgulho a condição de afro-descendente.
“Só quando o negro assumir sua identidade é que vai combater o massacre da cultura branca. Conseguimos avançar muito em termos de Bauru. Hoje temos a criação da Conselho Municipal da Comunidade Negra e a idéia de formar um fórum permanente da consciência negra, com a união de grupos com tendências diferenciadas”, comemora o presidente da Comissão do Negro e de Assuntos Antidiscriminatórios da Subsecção Bauru da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Antônio Carlos da Silva Barros.
Ele destaca ainda os vários movimentos que se organizaram nos últimos 20 anos no País e que agora estão começando a colher os frutos. O advogado cita como exemplo a nomeação do primeiro ministro negro do Supremo Tribunal Federal e a presença de vários afro-descendentes nos ministérios da Presidência da República.
____________________
Leia mais sobre este assunto
• Conselho tomará posse hoje à tarde