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Muito além do câmbio


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O superávit da balança comercial brasileira até outubro (US$ 20 bilhões) e a estimativa de fechamento do ano com saldo de US$ 24 bilhões são indicadores importantes, mas não cruciais para análise das perspectivas futuras do comércio exterior. Nesse sentido, há dois elementos decisivos: a capacidade de agregar cada vez mais tecnologia aos bens exportados; e a manutenção da economia equilibrada e passível de ingresso numa curva de crescimento sustentado, o que implica intransigente responsabilidade fiscal, conclusão das reformas e harmonia entre inflação baixa e juros civilizados.

Esses fatores são fundamentais porque, de um lado, desvinculam da variação cambial a performance do comércio exterior e, de outro, acrescentam bens de valor agregado à pauta de exportações, ao lado de commodities nas quais o Brasil já tem tradição. Muito mais do que estratégia de comércio exterior, o aumento da receita das exportações, ampliando-se o volume de vendas e o valor dos produtos, é fator condicionante à retomada do crescimento e à sua sustentabilidade.

Explica-se: o mercado externo, obviamente, é fundamental para estimular a produção, podendo representar significativo avanço do PIB. Contudo, o crescimento - considerando o impacto no nível de emprego e renda - suscita contrapartida do aumento das importações, pois não há economia auto-suficiente. Isto implica alavancar sempre as vendas externas para manter superávits, exigência vital para nações, como o Brasil, com dívida elevada (e, portanto, obrigadas a fazer pesadas remessas mensais de dólares) e dependência da poupança externa.

Para ilustrar o raciocínio, basta pegar dados consolidados do Banco Central sobre o balanço de pagamentos de setembro (superávit acumulado de US$ 3,6 bilhões). O saldo em transações correntes no ano era de US$ 3,8 bilhões positivos. Para esta conquista, as exportações foram preponderantes, pois só o superávit da balança comercial (US$ 17,7 bilhões) teria sido suficiente para cobrir o déficit das contas de serviços e de rendas, que somaram fabulosos US$ 16,04 bilhões. Imaginem se não tivéssemos exportado...

Felizmente, apesar das dificuldades persistentes - em especial as dívidas externa e interna - o Brasil parece caminhar para situação mais estável. Plantaram-se as bases para o crescimento. A persistir a curva de queda paulatina dos juros, essas perspectivas deverão ser mais concretas. Por outro lado, sedimentam-se em vários segmentos - a indústria gráfica, por exemplo, que investiu US$ 6 bilhões em máquinas e processos nos últimos 10 anos - reflexos do aporte tecnológico na performance das exportações. Um dos números de outubro é coerente com isto: vendas externas de manufaturados cresceram 19,3%. Assim, há indícios mais concretos de que o País possa assumir, em médio prazo, o status de fornecedor de padrão mundial, deixando a condição de “varejista” de oportunidades e incidentes cambiais.

Estamos face a uma mudança estrutural da economia mundial e do capitalismo, desencadeada pela intensificação da globalização e pela avassaladora revolução tecnológica, cujos eixos são a microeletronica, a informatica e as telecomunicações, a engenharia genética e a biotecnologia. Esta onda de inovações, entretanto, encontra-se ainda num grau primário de desenvolvimento e deve gerar novos conjuntos de produtos finais baratos e competitivos, que ainda não foram nem de forma tênue concebidos. Existe, portanto, uma brecha que pode ser aproveitada por aqueles países que realizarem um esforço importante e coerente de capacitação cientifica e tecnológica.

O autor, Paulo Feldmann, é diretor da consultoria BearingPoint e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade/FEA da USP.

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