Auto Mercado

Montadora defende manter IPI dos flex

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 8 min

Manter o índice atual - 10% - do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para os modelos bicombustíveis e, nos próximos 30 meses, renovar cerca de 85% de sua linha de veículos. Estes são dois dos principais objetivos - revelados durante o lançamento da Meriva FlexPower à imprensa especializada - da General Motors (GM) para o mercado automobilístico nacional. Presenças constantes nos eventos GM do gênero, o presidente da montadora brasileira, Walter Wieland, e o vice-presidente, José Carlos Pinheiro Neto, protagonizaram os anúncios dos planos da empresa de origem americana.

Wieland, que deixará o cargo em 2004, informou que, até abril do próximo ano, mais dois produtos serão lançados no Brasil. Apesar de não ter adiantado os modelos, o AutoMercado&Cia apurou que um deles será a nova Zafira. O outro ainda é um segredo guardado a sete chaves. “Eles integram nossa estratégia de renovarmos 85% da linha em 30 meses”, ressaltou o presidente.

Já Pinheiro Neto reiterou a luta da montadora pela permanência da alíquota do IPI para os flex, cuja redução de 3% - medida emergencial para alavancar as vendas do segmento implementada pelo governo Lula - se encerrará no final deste mês.

Além disso, o executivo também opinou, em entrevista ao AutoMercado&Cia, sobre a política governamental para o setor automotivo, novos investimentos, exportações, liderança de mercado, inspeção veicular e renovação da frota. Confira os principais trechos:

JC - Como a GM tem visto a política governamental para o setor automotivo e o que pode-se vislumbrar até o fim do seu mandato? Pinheiro Neto - É uma política responsável, principalmente, nas áreas cambial e de juros, que estão caindo. E esta queda continuada é essencial para nós, uma vez que 70% de nossas vendas são a prazo.

Na área econômica, o ministro Antonio Palocci (Fazenda) tem dado exemplos de uma conduta adequada e, no segmento de exportação, temos encontrado todo apoio, principalmente do ministro Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior). Já o futuro é difícil de se prever, mas registro o desejo que se continue assim.

JC - A redução do IPI não foi uma medida muito tímida para o setor? A recuperação do segmento não estaria diretamente relacionada à queda dos juros e da carga tributária? Pinheiro Neto - O que é importante que se discuta agora com muita seriedade é o tamanho e o peso da carga fiscal. O Brasil ainda tem o “privilégio” de ocupar a indesejável posição de um dos líderes mundiais de tributos sobre o automóvel.

Só para se ter uma idéia, ao comprar um carro de luxo no Brasil você paga dois: um para nós e outro para o governo. Os impostos também são responsáveis por 28% do preço do chamado carro popular.

Apesar disso, fabricamos no País o carro mais barato do mundo. Você não compra nada no Exterior com US$ 5 mil que tenha quatro rodas e que possa dirigir. E, com este valor aqui, somos muito bem servidos com veículos populares.

JC - Mas e a redução do IPI? Pinheiro Neto - Apesar de temporária, obviamente nos ajudou. O que temos insistido muito com algumas autoridades do Governo é pela manutenção do IPI nos carros bicombustíveis. O flex fuel é um ovo de Colombo, um boi de filé mignon que é bom e serve para todo mundo: os consumidores, a montadora, os sucroalcooleiros e, ainda, ajuda na manutenção de empregos.

Queremos que seja mantido o que está aí - o índice de 10% - e que não haja o aumento - para 13% - após 30 de novembro. É uma homenagem que se faria à produção brasileira. Nosso País é o único do mundo a ter - já implantado, funcionando e proporcionando uma série de benefícios - um programa alternativo sério de combustível.

Seria uma atitude criminosa não estimulá-lo, principalmente agora que o consumidor pode abastecer com o combustível e o preço que lhe convier. É a força de mercado tomando a decisão.

Insistiremos demais nessa tecla. Por isso, já conversamos com o governador Geraldo Alckmin e vários ministros e a receptividade tem sido excepcional pela manutenção do IPI dos flex. Desejo que isso ocorra e prometo que a GM se posicionará claramente e transparentemente a favor desta medida.

JC - Nas suas conversas com o governo, o senhor tem sentido alguma possibilidade de renovação da redução do IPI para os demais modelos? Pinheiro Neto - Nenhuma.

JC - Toda linha Chevrolet será equipada com a tecnologia flex? Pinheiro Neto - Toda linha não posso dizer, mas nos carros médios - dos motores 1.1 a 2.0 - será certamente uma tendência. É preciso focar, pois há uma carência de recursos. O que também nos norteou a adotar este posicionamento foi que somente estes modelos tinham benefícios fiscais.

JC - E como se comportarão os investimentos da GM no Brasil? O presidente Wieland já adiantou que haverá uma renovação de 85% da linha de automóveis nos próximos 30 meses... Pinheiro Neto - Esta é realmente nossa programação, o que irá demandar a necessidade de investimentos. Nos últimos anos, investimos ao redor de US$ 500 milhões por ano. Também estamos em uma fase de conclusão de uma operação bastante expressiva - cerca de US$ 240 milhões - com o governador Germano Rigotto (PMDB - RS) para nossa fábrica de Gravataí. É, praticamente, a duplicação da unidade.

Todo o programa já foi submetido à nossa corporação, em Detroit, e estamos trabalhando ativamente na tentativa de se aprová-lo. Temos concorrentes e alguns países, mas estamos confiantes de se obter um resultado favorável.

JC - E as exportações da GM? Pinheiro Neto - Nos primeiros dez meses do ano, já atingimos US$ 1 bilhão e nossa crença, até o final de 2003, é chegarmos aos US$ 1,2 bilhão. Hoje, a GM do Brasil exporta para 40 países. O grande importador tem sido o México, principalmente da Meriva e do Astra, totalizando cerca de 80 mil unidades.

Temos, ainda, China, Índia e Egito como mercados novos e emergentes com bom volume. Com a primeira temos contratos celebrados já de US$ 1,45 bilhão para os próximos dez anos.

Uma característica nossa é que não temos um enorme cliente, daí a necessidade de operarmos com 40 países. A GM se tornou uma plataforma exportadora há alguns anos, muito por conta de uma grande insistência do Walter Wieland.

A partir daí, deixou-se de priorizar somente o mercado interno ou só as exportações, mas os dois porque um complementa o outro. A exportação não substitui o mercado interno, mas o complementa. Com isso, ganhamos escala, o que é tão necessário para nós.

JC - Quanto da produção é destinada para exportação? Pinheiro Neto - Em termos de faturamento em dólar, atualmente na ordem de 25%. Mais do que tudo, elas proporcionam uma proteção a nossos compromissos em dólares.

JC - E quais os modelos mais exportados? Pinheiro Neto - Exportamos de tudo. A Montana acabou de ser lançada e estamos negociando com a África do Sul, México e uma série de países. O Celta, que era um privilégio só nosso por conta do motor 1.0, agora com o motor 1.4 teremos um mercado adicional.

JC - Porque os programas de inspeção veicular e de renovação da frota não saem do papel e não deslancham no País? Pinheiro Neto - Essa é uma grande pergunta que teríamos de fazer ao governo. A legislação está pronta já há algum tempo e sua implementação tem sido prorrogada ano a ano. Não há dúvida da absoluta necessidade do Brasil em se fazer essa renovação via inspeção veicular.

O Brasil nunca teve renovação e nossa frota está com uma idade média de 15 anos. O que se imagina é a remoção da rua do carro poluidor e inseguro.

JC - O senhor acha que a GM está preparada para assumir a liderança de mercado, posto que já chegou a alcançar este ano? Pinheiro Neto - Como conseqüência, uma vez que para nós não é objetivo. A liderança ela pode acontecer e, acho que daqui para frente, as três grandes montadoras - Fiat, GM e Volkswagen - vão se aproximar muito, fato que já ocorre hoje. Para nós, liderança é conseqüência.

JC - O senhor acha que as montadoras que entraram há pouco tempo no mercado nacional têm chance de deixar o Brasil? Pinheiro Neto - São empresas adultas e o mercado brasileiro é promissor. Ele não é lucrativo, estamos perdendo muito dinheiro aqui e já está mais do que na hora de ganharmos algo, mas é um mercado com extremo potencial. Não faço a menor idéia se poderá haver debandada. Só respondo pela GM e, por isso, afirmo que não haverá debandada.

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Wieland deixará presidência

A General do Motors do Brasil anunciou, através de comunicado oficial enviado à imprensa na semana passada, que o atual presidente da montadora, o argentino Walter Wieland, deixará o cargo em 1.º de janeiro de 2004.

Segundo a nota, a decisão foi tomada por vontade pessoal de Wieland para dedicar mais tempo à sua família e a projetos sociais junto com sua esposa. Presidente da GM do Brasil desde julho de 2000, entre as realizações de sua gestão destacam-se a inauguração do complexo automotivo de Gravataí e a iniciativa de começar a venda do Celta pela Internet.

Sob sua liderança, a GM do Brasil promoveu o lançamento de novos veículos (Zafira, novo Corsa, Celta quatro portas, Meriva, novo Astra, Vectra 2.0, novo Omega, Corsa Flexpower, Celta 1.4, picape Montana e Meriva Flexpower) e o planejamento de novas mudanças no portifólio de produtos da empresa.

Após passar o cargo a seu sucessor - Ray Young já foi indicado como presidente - Wieland continuará se reportando a Maureen Kempston Darkes, presidente das Operações da General Motors Corporation na América Latina, África e Oriente Médio, e dedicará especial atenção às atividades da montadora no Mercosul até se aposentar a partir de 1 de maio de 2004. (Da Redação)

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