Cultuar a paixão por antigüidades tornou-se hábito para milhares de pessoas no País. Por isso, o mecânico aposentado Ocidenei Arcides Daniel, 65 anos, 31 deles vividos em Bauru, é apenas mais um integrante desta “tribo”? A resposta seria positiva se a razão de existir do seu carinho não possuísse uma particularidade especial: ele admira os carros “velhinhos”, mas é fascinado por caminhões do gênero.
Exemplo disso é que, atualmente, Ocidenei é dono de dois “brutinhos” da Ford, ambos modelos F-350 do ano de 1960. Eles diferenciam-se nas cores - um é verde e outro amarelo -, mas compartilham características e qualidades que vão muito além da mesma marca. O que mais chama a atenção é o impecável estado de conservação, fruto do zelo do “bauruense de coração”.
Os dois caminhões - adquiridos após longos anos de suadas economias de Ocidenei - passaram por um verdadeiro “banho de loja”, que mesmo tendo lhes introduzido componentes mecânicos modernos não foi suficiente para alterar significativamente a originalidade.
As transformações mais radicais ocorreram nos motores e nas traseiras. Os originais e antigos V8 deram lugar a modelos - um 1111 da Mercedes-Benz e um MWM - utilizados em “brutos” atuais. Lá atrás, os “caminhõezinhos” receberam pára-choques escamoteáveis com as obrigatórias faixas refletivas.
Ainda por fora, um detalhe fornece a real dimensão do cuidado de Ocidenei com seus “xodós”. Em vez das tradicionais arruelas para fixar os parafusos de sustentação das placas, o aposentado utilizou moedas antigas. “Como são feitas de níquel, elas não enferrujam. Além disso, fica mais bonito”, justifica o ex-mecânico.
No restante, à exceção de pequenos itens de “perfumaria” estética, como as ponteiras de escapamento cromadas e a adaptação de alguns “relojinhos” no painel da cabine, os “Fordinhos” praticamente mantêm as características saídas de fábrica.
Ocidenei explica que sua preferência pelos caminhões iniciou-se quando trabalhava como mecânico em uma agência autorizada em um município vizinho. “Sempre gostei de coisas antigas. Quando via aquelas máquinas, zero na época, chegando na empresa eu pensava comigo que um dia teria uma igual”, recorda. “Olhava para os brutos dos clientes e ficava com água na boca”, acrescenta.
Para o aposentado, manter tais caminhões na garagem é uma forma de preservar a história. “As novas gerações não conhecem esses modelos. Às vezes, um pai olha para um deles e fala para o filho que o vovô tinha um igualzinho”, argumenta Ocidenei.
O fato de colecionar algo diferente também é lembrado pelo “bauruense de coração”. “É muito difícil ver caminhões desses anos em bom estado e rodando por aí. Vou a muitos encontros de veículos antigos e raramente acho outros do gênero”, considera. “Além disso, desperta a curiosidade por onde passa. É comum pessoas me pararem para perguntar o ano, motor e uma série de características”, frisa.
Por isso, quando conseguiu adquirir seus “Fordinhos”, ele fez questão de cuidar como um filho. “Arrumar de qualquer jeito qualquer um faz. Mas, fiz questão de reformá-los para deixá-los nos trinques. Hoje, eles são pau véios ajeitados”, brinca o aposentado.
Ocidenei também faz questão de utilizá-los sempre que possível, especialmente o modelo “verdinho”. “Com ele faço de tudo. Viajo, ando pela cidade e até faço carreto se precisar”, destaca. Surpreendentemente, ele admite vender um deles, mas por um bom motivo. “Queria reformar um carro Ford 1929 quatro portas”, revela.
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Perfil
Nome: Ocidenei Arcides Daniel Idade: 65 anos Hobby: Caminhões antigos Lugar bonito: Piracicaba (SP) Time do coração: Palmeiras
Para quem o senhor nunca daria carona nos seus caminhões? “Sou boa pessoa. Por isso, não deixaria de ajudar ninguém.”
E para quem o senhor faria questão de dar carona? “Para um comerciante amigo meu, o Toni.”
O que mais lhe irrita no trânsito bauruense? “Nada. Tenho paciência de sobra e deixo a pressa para os outros.”
Que nota o senhor daria aos motoristas bauruenses? “Seis, no máximo. Isso porque muitos não têm respeito ao rodar por aqui. Acho melhor dirigir em São Paulo do que em Bauru. O pessoal de lá é melhor.”