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Pênalti e gol contra


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Assisti a muitos jogos de futebol. Adoro uma pelada vista do lado de fora. Jamais vi o mesmo atacante errar pênalti e marcar gol contra, na mesma peleja. Os sucessivos constrangimentos e sacrifícios impostos aos aposentados num período recorde fizeram cair por terra a defesa do Lula em favor do ministro Ricardo Berzoini. Mais uma vez o presidente da República recorreu a uma metáfora futebolística para argumentar que “de vez em quando um bom jogador perde um pênalti, um bom beque central marca um gol contra, nem por isso ele é ruim”. O recuo do Palácio do Planalto diante das filas de aposentados interessados na revisão administrativa de seus benefícios não impediu a sensação de que o Ricardão não serve nem para jogar em campinho de vila, quanto mais na Várzea.

Talvez a explicação seja encontrada no passado do ministro, no tempo em que era bancário. Fila ele só conheceu do outro lado do balcão. Episódios como o de obrigar nonagenários a ir aos postos do INSS para recadastrar-se seriam considerados suficientes para derrubar o governo em países parlamentaristas. Os jornais e a TV mostraram o circo de horrores a que pensionistas da Previdência estão sujeitos devido a insensibilidade da burocracia. Infeliz daquele que envelhece e dependente de serviços públicos para sobreviver. As filas em postos da Justiça Federal e do INSS demonstram que, nessa área, o governo vem agindo com total imprevidência. Para aquele velhinho de 75 anos que morreu quando tentava desesperadamente, no último dia, ingressar com o pedido de revisão do seu benefício, o reconhecimento do equívoco pelo ministro e a extensão do prazo chegaram tarde.

No Brasil, para aposentar-se o contribuinte tem que ser extremamente organizado. Se não guardar todos os holerites durante 35 anos, está frito. É o contribuinte que tem que provar que tem direito ao benefício. Isso quando não pedem a você documentos que são de exclusiva responsabilidade da empresa. Trabalhei num jornal que deixou de existir como empresa e o INSS queria que eu desse conta do Livro de Registro de Empregados. Tive que rebolar. A informática tem pelo menos 30 anos de existência e imagina-se que a Previdência registre tudo o que recebe e tenha cadastro dos seus contribuintes. Se pegar fogo na repartição o coitado não se aposenta nunca mais.

Em países onde o cidadão é cidadão e os governos tem responsabilidades legais para com o contribuinte, o trabalhador, ao chegar a hora da sua aposentadoria recebe em casa uma carta informando-o dos seus direitos e marcando prazo e local para exercitá-lo.

E o doutor Palocci? Médico abnegado que cuida com extremo zelo da saúde de banqueiros internacionais e dos 150 bilhões de dólares sugados da nossa economia... Vetou míseros 8 milhões de reais de verba destinada a possibilitar que as Apaes possam educar crianças com deficiências. Esse foi um pênalti daqueles de perder campeonato. Bola na arquibancada. Nem o Baggio conseguiria melhor.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.

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