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Um novo Copom?


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A decisão do Copom de reduzir em 1,5% a taxa de juros Selic surpreendeu aos analistas financeiros. Havia quase um consenso de que a redução seria de 1%, em função das discussões havidas na reunião de outubro e que estão descritas na ata tornada pública há poucos dias. Este conflito entre a decisão da última quarta-feira e o entendimento anterior dos membros do Copom, ficou ainda mais claro pela ocorrência de dois votos contra o corte anunciado. Normalmente as decisões deste fórum do Banco Central são tomadas por unanimidade para evitar comentários do mercado.

Os dois membros que não concordaram com a aceleração da redução dos juros – nas últimas duas reuniões a decisão foi de cortar 100 pontos - são identificados pelo mercado como sendo os dois economistas da PUC - Rio que fazem parte da diretoria do Banco Central. Considerados como os dois falcões do grupo, eles representam o pensamento mais ortodoxo da equipe do ministro Palocci.

Estes fatos apontam, de maneira inconteste, para uma influência política por trás desta inesperada decisão. Teria havido, segundo o jornal a Folha de São Paulo, uma determinação direta do presidente Lula ao presidente do Banco Central para que o Copom reduzisse de forma mais agressiva os juros. Afinal, estamos nos aproximando do segundo ano do mandato de Lula e as coisas continuam mal paradas no campo do consumo, do emprego e da renda da população.

Seria a primeira vez, que a tão alardeada independência operacional do Banco Central seria atropelada por uma decisão política. Certamente uma brecha no escudo de proteção que o ministro da Fazenda montou de forma eficiente, para proteger sua equipe de técnicos conservadores da agenda política do PT.

A reação do mercado a esta turbulência foi de absoluta calma. Ninguém teve chilique, como seria a reação normal dos mais radicais defensores do Banco Central independente. Apenas algumas leves e contidas insinuações sobre o ocorrido e, mesmo assim, em tons de compreensão. A principal causa deste comportamento foi certamente o entendimento de que realmente o Banco Central vinha errando na velocidade em que os juros Selic estavam sendo reduzidos. A queda constante e rápida da inflação e uma economia no chão, por conta da queda do poder de compra dos brasileiros, apontavam para uma ação mais vigorosa do BC.

Por outro, os mercados estão convencidos das falhas do modelo econométrico que vinha sendo utilizado para calibrar as reduções dos juros. Nos últimos meses, a divergência entre as várias medidas do chamado núcleo da inflação apontavam claramente para esta direção. O núcleo de médias aparadas estava com sua credibilidade em baixa entre os analistas. Esta invenção estatística, criada ainda no mandato de Fernando Henrique, mostrou-se incapaz de medir corretamente a inflação. Ele vinha ficando sistematicamente acima da medida utilizada na maioria das economias avançadas e, chamado núcleo por exclusão. Embora a influência política nas decisões do Banco Central cause urticárias graves nos participantes do mercado, como tudo está dando certo, a postura de todos foi a de esquecer o que aconteceu. Afinal, um pouco de pragmatismo não faz mal a ninguém!

O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é economista, ex-presidente do BNDES e publicador do site Primeira Leitura.

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