Tribuna do Leitor

Licença para matar


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Durante dias ela foi molestada e aterrorizada. Ficou presa num cômodo escuro, diante de animais humanos violentos e sujos. Foi estuprada não por um, mas por quatro marginais. No final da triste jornada, apesar de seu choro e olhar clemente, foi sentenciada à morte: veio o primeiro corte profundo no pescoço, uma faca afiada, seccionando veias e nervos. O grito e o choro compulsivo, involuntário, o desespero incondicionado para estancar a hemorragia, só se calaram depois de 15 outras facadas pelo pescoço e peito. A cada golpe, a dor na carne e no espírito, a frieza do metal e do inquisidor, foram turvando seu olhar. Ela não mais chorava. O sangue continua escoando, absorvido pela terra, enquanto a vida abandonava seu corpo. Vão-se os sonhos. Seu único erro: ter morrido no Brasil.

Vítima desse cenário dantesto e repulsivo, orquestrado por um menor, a jovem Liana Friedenbach, de 16 anos, foi apenas mais uma vítima do descaso da sociedade civil, que insiste em tratar monstros como adolescentes, tal como ela foi um dia. Essa garota, jovem cheia de vida e sonhos, foi barbaramente torturada, estuprada e morta pelas mãos de monstros em forma de gente, a personificação da crueldade. Um monstro que não pode, doravante, ter divulgada a sua imagem, mesmo sendo a verdadeira face do desprezo pela vida. Um monstro que não pode ter o nome divulgado, conhecido apenas pelas iniciais R.A.C..

Esse monstro, de 16 anos, em breve fugirá de uma daquelas unidades que cuidam de adolescentes como se estes fossem crianças comuns. Se não fugir, em 3 anos (o máximo permitido), ele estará nas ruas sem qualquer registro desses crimes e eu, você (leitor) ou quem quer que seja, não temos permissão de o reconhecer. Ele poderá estar com nossas crianças, provavelmente reincidirá no mesmo crime, mas agora com o aval do Estado. Ele tem licença pública para matar. Deus que me perdoe, mas ainda quero ver um desses malditos defensores dos “direitos humanos”, tal qual o Ministro da Justiça ou os integrantes das comissões que levam o mesmo nome, verem seus filhos serem vítimas de “meros adolescentes infratores”. Duvido, e aposto minha vida nisso, que se fosse a filha do Ministro – ou de outro defensor desses animais menores de idade – que tivesse sido barbaramente torturada, estuprada e morta, iria ele iria continuar afirmando que “não vê sentido na redução da idade penal” (Jornal da Globo, 12/11/03).

Enquanto esses criminosos violentos continuarem a serem tratados como crianças desajustadas, enquanto a sociedade continuar achando que psicólogo e computador novo vai resolver o distúrbio mental que leva seres humanos a agir como bestas apocalípticas, enquanto o termo “crime” continuar a ser substituído por “infração”, a violência só tenderá a aumentar. É necessário não apenas a redução da maioridade penal, mas uma punição mais severa e um tempo de reclusão proporcional à gravidade do crime cometido pelo adolescente.

Por enquanto, quem teve a foto e o nome divulgado foi apenas a adolescente morta. O bárbaro criminoso, por ser menor de 18 anos, tem a mais absoluta garantia da lei, que protege sua imagem como um pai zeloso. Enquanto ele deita em lençóis comprados por nós, a jovem Liana e outros tantos deitam apenas nas frias mesas do IML. E, nesse panorama indefectível, que venha a próxima vítima.

Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173

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