Cultura

Talento reconhecido

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 6 min

Considerado um dos maiores intérpretes da música brasileira, o paulista Jair Rodrigues, 63 anos, esbanja talento e alegria nos palcos. Há 41 anos na estrada atuando como cantor e compositor, ele possui 41 discos gravados e segue com uma agenda intensa de shows pelo País. Hoje, a partir das 20h, Jair se apresenta no ginásio do Serviço Social do Comércio (Sesc), em Bauru.

O repertório da noite inclui clássicos como “Disparada”, “Tristeza”, “Boi da Cara Preta”, “Majestade o Sabiá”, além de canções do seu último CD, “Intérprete”. Lançado ano passado, o álbum foi produzido pelo filho do cantor, Jair Oliveira (o Jairzinho), reunindo clássicos da MPB e duas canções inéditas: “Mãe de Verdade” e o partido alto “Catimbó Numa Perna Só”.

Na ativa desde o início da década de 60, quando começou se apresentando como crooner de bandas no Interior paulista, Jair participou de diversos festivais e programas de calouros nas casas noturnas de São Paulo. O reconhecimento veio em 1964, quando emplacou o sucesso “Deixa Isso Pra Lá”, música que lhe rendeu mais tarde o título de precursor do rap no Brasil.

Em 1965, o cantor formou com Elis Regina a famosa dupla Jair e Elis. Juntos, eles gravaram o LP “Dois na Bossa” e comandaram o programa “O Fino da Bossa”, na TV Record. No ano seguinte, Jair conquistou, com “Disparada”, o primeiro lugar no Festival da Record. Embora não tenha ficado no centro dos holofotes na década de 80, Jair nunca parou e sempre se manteve como um dos maiores nomes do cenário musical brasileiro, defendendo as várias vertentes do samba - desde o “sambão” até o samba-canção, passando ainda pelo partido alto - além de cantar forró, bolero, seresta, rap e MPB.

Nos anos 90, o intérprete acompanhou o sucesso de Jairzinho e Luciana Melo, que herdaram do pai o talento musical. Ligado à nova safra de cantores, Jair é um dos poucos intérpretes que alia a tradição dos seus clássicos à modernidade - fato que pode ser conferido nas diversas parcerias feitas com seus filhos e com os músicos Wilson Simoninha e César Camargo Mariano.

Sempre simpático, o cantor conversou por telefone com o Jornal da Cidade e falou sobre sua carreira e o trabalho dos novos cantores da MPB. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - De onde vem essa alegria nos palcos? Jair Rodrigues - Comigo não tem “barriga me dói” e “dois mais dois são quatro”. Todos têm problemas, mas somos nós quem temos que resolver, eu jamais levarei problemas para cima do palco. É assim que eu levo a vida. Além disso, estou feliz porque geralmente quem faz show é o pessoal que está fazendo sucesso nas rádios. Eu não preciso mais disso, se eu tiver alguma música na parada, tudo bem. Mas se não tiver, continuo fazendo shows.

JC - Você é considerado precursor do rap no Brasil, é um dos grandes nomes do samba e defendeu a Bossa Nova. Como você se define musicalmente? Jair - Eu me defino como intérprete. Antes dessa parafernália toda de disco, rádio e televisão, eu cantava na noite, como crooner. Esse período foi muito importante e tudo o que eu faço, aprendi nesse começo. O fato de eu cantar todos os ritmos veio praticamente da noite. Após os meus primeiros LPs “O Samba Como Ele É” e “Vou de Samba Com Você”, eu comecei a jogar com vários estilos e passei a me lembrar da época em que eu era crooner. Além disso, comecei a observar meus ídolos, como Agostinho dos Santos, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Dalva de Oliveira e Sílvio Caldas e percebi que eles não ficavam rotulados por fazer um ritmo só. Graças a Deus hoje eu tenho um repertório vasto, formado por vários segmentos da música.

JC - Sua carreira é marcada por algumas parcerias. Qual foi a importância da dupla Jair e Elis? Jair - Eu já toquei com tanta gente, mas a primeira, com a grande e inesquecível Elis Regina, foi histórica. A dupla surgiu em 1965, quando eu participei de um show em São Paulo, no qual Elis também estava. Durante o ensaio, nós fizemos alguns sambas em pout-pourri e aquilo foi o ponto alto da noite. Disso saiu um disco, “Dois na Bossa”, que vendeu na época mais de 1 milhão de cópias. Logo em seguida, nós fomos contratados para apresentar o programa “O Fino da Bossa”, na Record, e ali fizemos história, além de colocar muitos artistas na história também.

JC - Você acompanhou a trajetória de muitos músicos brasileiros. Como você avalia o trabalho de novos talentos, como seus filhos Jairzinho e Luciana Melo? Jair - Hoje se fala muito em nova geração, mas na verdade, esses músicos cantam há tempos, mas só tiveram a oportunidade de mostrar seus trabalhos há uns 3 ou 4 anos. O Jairzinho e a Luciana estão há muito tempo no meio. O filho do Wilson Simonal também. Então se fala em nova geração, mas acho que a única da nova geração que apareceu agora foi a Maria Rita Mariano.

JC - Por falar em Maria Rita, qual é a sua opinião sobre o seu trabalho? Jair - Eu fui assistir ao show dela e acredito que ela tem luz própria, eu gosto da sua voz. Mas, embora ela diga que não imita a mãe, acho que ela puxa um pouco o gestual da Elis.

JC - E em relação ao Jairzinho e a Luciana, você acredita que seu trabalho influenciou a trajetória dos seus filhos? Jair - Eles me acompanharam em shows quando era pequenos, mas o lance deles é completamente diferente do meu. A Luciana por exemplo, tem identidade própria até no nome. Ela quis caminhar com as próprias pernas, mesmo na forma de interpretar. Ela não tem isso de ficar agarrada com a voz de ninguém, ela teve essa felicidade.

JC - Por que você acha que a nova geração só teve espaço agora? Jair - Nos anos 60 e 70, o pessoal olhava com mais carinho para essa nova rapaziada. De repente, no final dos anos 80, começou essa falta de interesse com a nova geração. Aí eles ficaram estudando, se preparando, e esperaram chegar a hora. Nos anos 90, surgiu a oportunidade de gravar. Agora eles estão podendo mostrar o trabalho e estão aí, brilhando.

• Serviço

Show de Jair Rodrigues hoje, a partir das 20h, no ginásio do Sesc. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (14) 3235-1750.

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