Ronaldo Schiavone
A aposentada Odete Braite contraiu uma infecção no pé esquerdo e, apesar da dor, precisou esperar 25 dias para ser atendida por um dos médicos da rede pública de saúde de Bauru. Na data da consulta, porém, teve uma surpesa desagradável. “Cheguei à Unidade Básica de Saúde (UBS) às 8h30, que era o horário marcado. Às 13h, uma moça falou que seria preciso reagendar a consulta”, relembra.
Ela conta que chegou a insistir, mas não conseguiu ser atendida. “Expliquei que estava com muita dor e, então, a funcionária avisou que iria marcar a consulta para terça-feira. Só que ainda era sexta-feira”, diz.
Segundo Odete, a novela teve outros capítulos na semana seguinte. “Na terça-feira, a consulta estava agendada para 13h30, mas o médico chegou às 15h. Havia cinco pessoas na minha frente e, quando chegou a minha vez, ele olhou o ferimento e disse que eu não tinha nada. Escreveu um bilhete e pediu para que eu entregasse para o médico que havia me encaminhado”, relata.
A aposentada afirma que ficou indignada. “Questionei se o médico não iria dar nenhum remédio para a minha dor e ele falou que o ferimento já estava cicatrizado. Isso foi na semana passada e ainda não sarei completamente. Eu tive que me automedicar com uma pomada”, afirma.
Para encontrar casos como o de Odete basta percorrer as unidades básicas de saúde do município. A reportagem esteve em uma delas, no Jardim Redentor, para conversar com alguns pacientes.
O aposentado João Teodoro, que estava acompanhando a esposa em uma consulta, reclama do atraso do clínico geral responsável pelo atendimento. “A consulta era às 15h, mas são 16h30 e ele ainda não chegou. É um pouco caso o que eles fazem. Quando eu me consulto, é a mesma coisa”, diz.
Ele também se queixa da pouca quantidade de consultas oferecidas. “Tem gente que chega aqui de madrugada para guardar a vaga”, declara.
Mais sorte teve o promotor de vendas Arnaldo Tomelli. “Cheguei aqui agora há pouco e consegui uma desistência. O único problema está sendo o atraso do médico”, justifica.
Já a aposentada Maria Sabino Rodrigues afirma que deixou de ter problemas quando passou a fazer parte da lista de pacientes pré-agendados, destinada a quem sofre de doenças crônico-degenerativas. “Tenho diabetes e hipertensão. Venho todos os meses medir a pressão e me consulto a cada três meses”, conta.
Ela diz se lembrar muito bem da época em que tinha que batalhar por uma consulta. “Eu precisava vir de madrugada. Depois, por causa dos meus problemas, passaram a me pré-agendar”, explica.
Explicações
A diretora do Departamento de Planejamento, Avaliação e Controle (Depac) da SMS, Heloísa Ferrari Lombardi, admite que acabar com todos os problemas do sistema é uma questão complexa. “Tenho 20 anos de trabalho na rede e sempre acredito que vamos conseguir melhorar, mas é difícil”, reconhece.
Ela afirma que a secretaria tem procurado oferecer um atendimento descentralizado. “Estamos fazendo uma oferta de serviço regionalizado, próximos da população. Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), devemos ter 80% de resolutividade na rede básica e 20% na especialidade ou urgência”, justifica.
Heloísa conta que há programas, chamados protocolos, que absorvem grande parte das consultas. “Precisamos ter um mínimo de normatizações para que possamos fornecer o atendimento, como periodicidade de consultas médicas, enfermagem, nutrição e outras”, exemplifica.
Segundo ela, o pré-agendamento de pacientes com problemas crônico-degenerativos está incluído nesses programas. “Eles ficarão muito tempo sendo atendidos por causa dessas doenças e temos todo um controle deles, que precisa ser periódico”, declara.
A diretora do Depac diz, ainda, que há outros grupos de risco sendo priorizados. “Desde a década de 80, temos o Programa de Defesa da Vida, que diminui o risco de morte em menores de um ano. Todos os meses, o bebê tem que ir à unidade e temos vários procedimentos. Se a mãe falta, recebe uma convocação imediata”, revela.
Para ela, a ampliação de iniciativas como o Programa de Saúde da Família ajudaria a diminuir a demanda reprimida do município. “Ele é uma opção nessa linha de pensamento, porque tem um atendimento familiar na casa, em que muitas orientações e a visibilidade do problema real daquele bairro nos proporciona uma facilidade de conduta”, opina.
Sobre o atraso para o início das consultas, Heloísa afirma que a Secretaria Municipal da Saúde tem procurado fiscalizar o cumprimento de horários. “Temos uma equipe de supervisão, mas é lógico que a periodicidade com que ela passa nas unidades não é tão curta, até pelo número de unidades que a gente tem. É importante que a população saiba, no entanto, que estamos atentos a essa questão”, relata.
Ela destaca que a secretaria também tem investido em recursos humanos. “Criamos uma comissão de aprimoramento, em que todos os departamentos têm um representante discutindo quais são as prioridades naquele momento. Os treinamentos estão sendo contínuos e é nessa linha que vamos melhorar o atendimento e otimizar as consultas”, diz.
Já o secretário municipal da Saúde, Hanna Georges Saab, afirma que há estudos sendo feitos para implementar algumas medidas que beneficiariam a população. “Para o próximo ano, pretendemos diminuir essa demanda aumentando o horário de atendimento, mas ainda não há nada definido com relação a isso”, explica.
Unidades Básicas apresentam perfis diferentes
A análise dos números apresentados pela Secretaria Municipal da Saúde (SMS) é capaz de revelar facilmente as Unidades Básicas de Saúde (UBS) mais procuradas, como as do Jardim Ipiranga, Núcleo Geisel ou Jardim Redentor, mas há outros detalhes curiosos que se escondem por trás das estatísticas, como o perfil que cada unidade apresenta.
A diretora do Departamento de Planejamento, Avaliação e Controle (Depac) da SMS, Heloísa Ferrari Lombardi, conta que, geralmente, essa diferença está relacionada à a população que mora em determinada região. “Há unidades que têm como característica atender muitas crianças, como a do Parque Jaraguá. Há outras em que há muitos aposentados, como a Vila Cardia, no Centro da cidade, que tem muito mais adultos sendo atendidos do que crianças”, revela.
Ela conta que há casos, porém, em que outros fatores é que chamam a atenção. “Às vezes, a população busca o médico em determinada unidade. A pessoa mora em um outro lado da cidade, mas procura, por exemplo, uma ginecologista que temos no Núcleo Octávio Rasi, porque tem vergonha de se consultar com um homem”, diz.
Heloísa explica que um fenômeno parecido é observado na UBS do Centro, a que mais registrou atendimentos ginecológicos em outubro. “São médicos muitos antigos, da época do extinto INPS (Instituto Nacional de Previdência Social). As pessoas tiveram filhos com eles e continuam até hoje os procurando”, afirma.