Cultura

O último romântico

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

Roberto Luna faz parte de uma estirpe de cantores em extinção. É um gentleman, o que é raro numa época em que qualquer intérprete exige mundos e fundos para subir ao palco. “O segredo para continuar trabalhando bem é ter o pé no chão”, revela, brincando com o fato de alguns artistas insitirem em detalhes como a cor da toalha do camarim antes de assinarem um contrato.

Luna, que esteve em Bauru na última semana para se apresentar no baile de aniversário da Sociedade Hípica, sabe como poucos o que é o mercado fonográfico e a vida de artista no Brasil. Ele, que completa 74 anos amanhã, soma 55 anos de carreira e é um dos últimos grandes cantores do rádio ainda na ativa.

Nascido Valdemar de Farias, em Serraria, na Paraíba, Luna trabalhou no teatro de revistas e estudou com o ator Ziembinsky. Foi apresentado por Assis Valente a Chianca de Garcia para trabalhar como cantor, mas acabou sendo contratado como auxiliar de divulgação na Companhia Teatral. No final dos anos 40, começou a cantar como crooner nas boates cariocas.

Foi nessa época que ganhou o nome que o deixaria famoso. “O Afrânio Rodrigues achava que Valdemar de Farias era nome de caixeiro viajante. Um dia, ao me apresentar num show, me anunciou como Roberto Luna, uma revelação da música. Como não havíamos combinado nada, fiquei parado esperando para ver quem era o tal Roberto, daí alguém me empurrou para o palco e descobri que aquele era o meu novo nome”, conta.

No início dos anos 50 atuou nas rádios Guanabara e Globo e em 1952 gravou o primeiro disco. Um compacto com o bolero “Por Quanto Tempo”, de Marino Pinto e Don Al Bibi, e o samba-canção “Linda”, de Erasmo Silva e Ruy Rey. Nascia uma estrela da música.

Depois de mais alguns discos em 53, na Rádio Clube, começou a participar dos programas “Caderno de Melodias”, “Ciranda dos Bairros” e das “Audições Roberto Luna”.

Em 56, gravou aquele que talvez seja seu maior sucesso: “Molambo”, de Jaime Florence e Augusto Mesquita. Um ano depois, se tornou o segundo artista a gravar a dupla Tom Jobim e Vinicius de Moraes, cantando “Se Todos Fossem Iguais a Você”. Mais tarde gravaria também “Serenata do Adeus”, de Vinicius e “Por Causa de Você”, de Tom e Dolores Duran.

O jornalista Flávio Pedroso, que na época trabalhava na TV Tupi, em São Paulo, conta que Luna era um dos maiores ídolos da música do período, além de ser um dos pioneiros da televisão brasileira. “Ele cantava em todos os programas e tinha um próprio, onde recebia amigos”, diz Pedroso, lembrando que programas como “Astro do Disco”, da TV Record e “Campeões do Disco”, da Tupi, onde Luna era presença constante, eram os equivalentes do “Globo de Ouro” da década de 80.

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Principais discos

• “Por quanto Tempo”/”Linda” (1952) Star 78

• “Pode Voltar”/”Minha Casa é Meu Chapéu” (1953) Sinter 78

• “Vou Partir”/”Volta...” (1953) Copacabana 78

• “Jurema”/”Deixe-me em Paz” (1953) Copacabana 78

• “Contigo”/”Você” (1954) Odeon 78

• “Deus me Ajude”/”Pierrô” (1954) Odeon 78

• “Noite de Chuva”/”As Morenas da Praça Espanha” (1955) Odeon 78

• “Falsas Palavras”/”A Mulher é Sempre Mulher” (1955) Odeon 78

• “O Pior dos Homens”/”Escuta, Palhaço” (1956) Odeon 78

• “Pois é...”/”Molambo” (1956) Odeon 78

• “História de um Amor”/”É Tão Tarde” (1956) Odeon 78

• “Que Murmurem”/”Sou um Estranho” (1957) Odeon 78

• “Vilma”/”Vontade de Morrer, Nunca” (1957) Odeon 78

• “Se Todos Fossem Iguais a Você”/”Porque Perdoei” (1957) Odeon 78

• “Bom Dia, Café/”O Relógio” (1958) RGE 78

• “Serenata do Adeus”/”Cabaretera” (1958) RGE 78

• “Desde Ontem/”Por causa de Você” (1958) Odeon 78

• “Tudo o que Resta”/”Merci” (L’Edera) (1959) RGE 78

• “Pequena Flor/”Aquece-me esta Noite” (1959) RGE 78

• “Hino ao Amor”/”Ritorna a Mi” (1959) RGE 78

• “Rotina”/”Onde Está o Amor” (1960) RGE 78

• “Exemplo”/”Suplício da Saudade” (1960) RGE 78

• “Confissão”/”Assim é se Nos Parece” (1961) RGE 78

• “Adiós Pampa Mia e Outros Tangos Famosos” (1961) RGE LP

• “Loucura... Loucura”/”O amor é Traiçoeiro” (1962) RGE 78

• “Tangos Famosos” (1963) RGE LP

• “O Luna Que eu Gosto” (1965) Phillips LP

• “Roberto Luna” (1972) Chantecler LP

• “As Vinte Preferidas do Roberto Luna” (1997) RGE CD

• “Tributo a Anísio Silva” (2000) Polidisc CD

• “Tributo a Gatica” (2000) RGE CD

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