Cultura

Sobre mundos: Advento: tempo de mudanças

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Certo dia, um sitiante, amigo do irmão Bento, aproximou-se do mosteiro com um enorme e bonito cacho de uvas. Era exatamente o irmão Bento que estava na portaria do mosteiro naquele dia. “Irmão, você sabe para quem estou trazendo este cacho de uvas?” O irmão pensou, e pensou... “Com certeza para o abade ou então para um dos padres, sei lá, como posso saber?” “Para você!”, disse o sitiante. O irmão Bento se encheu de alegria e em sua simplicidade nem encontrava palavras para agradecer.

“Nós conversamos há tanto tempo, você já me ajudou muitas vezes, por que eu não iria pensar em você ao querer dar um presente a alguém?” Satisfeito com a reação do irmão, o sitiante continuou seu caminho. Irmão Bento começou a olhar o enorme e bonito presente e sentiu pena de estragá-lo comendo as uvas. Foi então que lhe surgiu uma idéia: “Se eu der este cacho de uvas ao abade, ele vai ficar com certeza muito feliz”.

Assim, o irmão Bento passou adiante o presente. O abade ficou realmente feliz. Mas quando ele se dirigia para o quarto de um padre doente lhe veio o seguinte pensamento: “Com este cacho de uvas com certeza eu poderei dar um pouco de alegria ao amigo que não está nada bem!”

Assim, o presente foi entregue ao padre. É claro que ele não parou no quarto do doente, o qual tinha se alegrado muito com a atenção do abade mas não podia comer as uvas. Desta forma, o presente foi passado adiante. Finalmente, um monge chegou todo feliz à portaria do mosteiro com o cacho de uvas nas mãos e resolveu fazer o irmão Bento feliz. O irmão não teve outra alternativa senão saborear as maravilhosas uvas.

O Advento, ou seja, o período que antecede o Natal, constitui-se em um momento de preparação para a grande festa. Para entendermos o sentido desta preparação é necessário compreendermos com mais profundidade o que o Natal, na verdade, significa. A festa de Natal possui duas dimensões. A pri meira é um olhar para o passado, ou seja, a lembrança de um momento mágico da história da humanidade: o nascimento de Jesus Cristo. Aqui relembramos que Deus se fez homem. O divino transforma-se em humano.

A segunda dimensão do Natal é um olhar para o futuro, ou seja, a orientação para uma vida nova. Enquanto a primeira dimensão é festejada, esta segunda deve ser vivida. Se na primeira dimensão do Natal nos recordamos do milagre de Deus ter se tornado homem, a segunda nos alerta que o Natal é uma chance para nós, humanos, nos tornarmos mais divinos.

Neste sentido, o Natal não deve ser simplesmente uma festa, uma comemoração, mas sim uma experiência de vida, uma decisão que está em nossas mãos: deixar que hoje Deus (re-) nasça em cada um de nós. Viver o Natal, ou seja, permitir que Deus renasça em cada um de nós, é renovar o “Sim” ao presente que Ele nos deu: a Vida.

O Natal é a chance de reiniciarmos uma nova caminhada, tornando este presente de Deus - a vida - algo de maravilhoso e divino, como ela pode realmente ser. Para que o Natal realmente aconteça é fundamental pararmos um pouco neste tempo do Advento para pensar sobre como estamos vivendo, o que está faltando em nossa vida e qual a decisão que devemos tomar para que sejamos mais felizes.

Deixar que Deus renasça em nós é renovarmos as forças de viver sem medo de ser feliz. Natal significa deixar que a “Luz” ilumine o nosso ser e expulsar qualquer tipo de “escuridão” que ainda está presente em nossa existência. Neste sentido, Natal é a chance de re-descobrir a essência de viver, exatamente o que o “profeta” Henry Thoreau procurou experimentar em sua vida: “Fui à floresta porque queria viver profundamente e sugar a essência da vida. Eliminar tudo o que não era vida. E não, ao morrer, descobrir que não vivi”.

O Natal como aniversário de Jesus será, de qualquer forma, festejado, mas o Natal como experiência de vida só acontecerá se procurarmos, neste tempo do Advento, um momento de solidão ou uma celebração religiosa e refletirmos sobre nossa vida: o que é preciso ser transformado nela, o que está nos fazendo de alguma forma deixar de viver? Qual a decisão que devemos tomar a partir de amanhã? Nós viveremos verdadeiramente o Natal se nesta reflexão jogarmo-nos nas mãos do Deus da Vida permitindo que Ele renove nossas forças.

Neste sentido é que a decoração natalina, a ceia e os presentes, devem ser compreendidos. O costume de se presentear alguém no Natal deve ser o primeiro passo de uma transformação interna. Dar um presente a alguém é procurar fazer a vida de alguém mais feliz, ou seja, significa viver a partilha.

O ato de presentear deve expressar a idéia da comunhão, o fato de que ninguém é feliz sozinho. Para que o momento mágico do Natal realmente aconteça é necessário deixarmos que Deus - eterna e crescente criatividade - “trans-realize” o nosso ser, abrindo assim um caminho de fraternidade para sermos fundamentalmente felizes e podermos realmente viver.

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