Trocar um monte de remédios por meia dúzia de agulhas espetadas em pontos fundamentais para o funcionamento do organismo tem sido a alternativa encontrada por pacientes de diversos problemas crônicos, que muitas vezes já não tinham esperança em reverter o quadro clínico.
Utilizada há milênios no Oriente e praticada há algumas décadas no Brasil, a acupuntura só foi reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina em 1995, e pela Associação Médica Brasileira, em 1998. Mas hoje a especialidade médica já conta com pacientes que não trocam o tratamento.
Na tentativa de solucionar uma cirurgia que não foi bem sucedida, a advogada Maria Antonieta Camargo Pardini, 53 anos, há cerca de 40 dias, buscou a acupuntura para recuperar o funcionamento da bexiga prejudicado na intervenção cirúrgica.
“O objetivo que eu tinha em fazer acupuntura era retomar a atividade da bexiga, o que já melhorou 80%. Mas sinto que a terapia deu uma brecada na ansiedade e uma freada na fome. Já deu para emagrecer uns três quilos e a minha coluna também não dói mais como antes.”
O médico acupunturista Vinícius de Tassis explica que a acupuntura nada mais é do que o uso das agulhas no estímulo de neurotransmissores que vão levar substâncias estimulantes ao funcionamento do organismo. Essas substâncias também provocam sedação leve e eliminação de líquidos.
“A acupuntura serve para alinhar todo o organismo”, defende o médico. Ele explica que a perda de peso provocada pela acupuntura, que pode variar de três a cinco quilos por mês, é avaliada por especialistas como sendo fisiológica.
Afinal, o próprio ambiente em que se aplica a terapia já propõe uma nova ordem no organismo. É um momento de relaxamento, em algumas sessões, até de meditação, outra prática que comprovadamente estimula o funcionamento do organismo.
Tassis, que é especialista em tratamento da dor, iniciou na acupuntura há nove anos e confessa que na época sentiu um certo preconceito, mas hoje revela que a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece 300 doenças com indicação e resolução pela acupuntura, seja no procedimento clássico, com o uso sistêmico de agulhas em pontos localizados nos 12 meridianos do corpo, ou com a estimulação auricular (auriculoterapia) com sementes, agulhas e eletroestimulação. A orelha é mapeada como um feto invertido com pontos correspondentes a todo o organismo.
Afinal, a medicina ocidental separa os problemas físicos dos mentais e emocionais, enquanto a medicina chinesa aborda as enfermidades de uma maneira global, não isolando os distúrbios emocionais ou nutricionais das desordens físicas no tratamento. De fato, ela atribui as causas internas das doenças aos desequilíbrios da dieta e às sete emoções.
Abordagem do paciente
Segundo informações do Instituto Brasileiro de Medicina Tradicional Chinesa, filiado à Associação Brasileira de Acupuntura, a medicina chinesa presta especial atenção às queixas subjetivas do paciente e prescreve combinação dos pontos de acupuntura e fórmulas herbáceas nutritivas baseadas na totalidade dos sintomas objetivos e subjetivos. A constelação de sintomas é chamada de “conformação”. A medicina ocidental geralmente oferece um tratamento não-específico ou supressivo para um vasto número de desordens funcionais enquanto a chave da medicina chinesa é a observação da função e o uso específico da combinação dos pontos de acupuntura com as combinações herbáceas para os sintomas altamente diferenciados. Por isso, talvez as consultas de medicina oriental sejam bem mais demoradas que as ocidentais.
Por exemplo: os médicos ocidentais prescrevem uma loção para lavar os olhos avermelhados e irritados, já os médicos chineses consideram como um sintoma de exacerbação de “fogo” no “fígado” e tentam diminuir o “fogo” pela administração oral de agentes orientados para o fígado como coptis e gardênia, ou pela seleção de pontos de acupuntura com as mesmas funções. Outro exemplo é a pele pruriginosa, uma condição na medicina chinesa também associada com a “vitalidade” do “fígado”. Cuidando do “fígado”, a pele melhora sozinha. Portanto, o “fígado” é o ponto focal para o tratamento. A medicina ocidental usaria preferencialmente uma loção dermatológica para tratar as enfermidades da pele, enfocando o sintoma específico.