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Centro oncológico é vitória para ABCC

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 6 min

As ações que pretendem transformar o Hospital Manoel de Abreu num centro de referência em atendimento oncológico têm sido consideradas por membros da Associação Bauruense de Combate ao Câncer (ABCC) como uma das maiores conquistas da entidade em seus 53 anos de atuação.

Comovidas com o drama de portadores de câncer da cidade que, em 1950, precisavam ir até São Paulo para fazer um tratamento especializado, senhoras da alta sociedade de Bauru uniram-se para arrecadar dinheiro em prol dos doentes mais carentes.

Era o início da associação, que agora comemora sua atuação como parceira do hospital local em sua nova ala oncológica. Presidente da ABCC há cerca de 15 anos, a voluntária Lyenne Berriel Cardoso fala sobre a trajetória da entidade nesse meio século de auxílio aos bauruenses com câncer.

Jornal da Cidade - Como surgiu a associação? Lyenne Cardoso - Tudo começou com a Rede Feminina de Combate ao Câncer, em 1950, quando Carmem Prudente e um grupo de outras mulheres fortes e corajosas decidiram melhorar a situação do paciente de câncer da cidade. Nessa época, os doentes eram levados para São Paulo, porque não tínhamos nem onde interná-los, nem médicos, nem aparelhos.

JC - E como elas ajudavam? Lyenne Cardoso - Elas angariavam dinheiro fazendo eventos e usavam os recursos para custear remédios, alimentação e o transporte desses pacientes ao Hospital do Câncer, em São Paulo.

Foi assim até o início da década de 80 mais ou menos. Aí, cidade já tinha os recursos para tratar a doença e só os casos mais graves eram encaminhados para São Paulo. Em julho de 1981, foi fundada a Associação Bauruense de Combate ao Câncer, que deu continuidade aos trabalhos da Rede Feminina.

JC - Desde então, como a associação funciona e o que ela faz? Lyenne Cardoso - A ABCC dá toda assistência possível ao paciente de câncer: encaminhamento para diferentes setores e serviços, medicamentos, suporte alimentar e principalmente o apoio psicológico e social, que é muito importante.

JC - Quantas pessoas a entidade atende atualmente? Lyenne Cardoso - Este mês nós atendemos 254 pacientes.

JC - Em termos financeiros, quanto a ABCC investe nesse trabalho? Lyenne Cardoso - Em média, nós gastamos cerca de R$ 12 mil por mês, principalmente com remédios. E ainda conseguimos ter um gasto razoavelmente baixo porque trabalhamos com apenas três funcionários: a assistente social, uma secretária e uma faxineira. O motorista é cedido pela prefeitura e todo o resto do trabalho é voluntário.

JC - São quantos voluntários? Lyenne Cardoso - Nós temos entre 50 e 60 voluntários. Alguns ajudam dentro da sede, no atendimento direto aos pacientes. A maioria cuida de organizar eventos, que é a forma que nós temos de obter dinheiro para cobrir todas essas despesas.

JC - Vocês recebem algum recurso do governo? Lyenne Cardoso - Nós temos uma verba mensal da prefeitura de R$ 750,00.

JC - Algum recurso federal ou estadual? Lyenne Cardoso - Não. Temos parcerias com algumas empresas, como o Colégio Fênix e a Provence, que nos doa uma porcentagem sobre a venda de todos os sutiãs, na campanha “Quem tem peito colabora”. Estamos tentando apoio de outras empresas, mas nosso maior aliado é o Mc Dia Feliz, que nos proporciona a melhor renda.

Na última campanha, conseguimos R$ 36 mil, que nos possibilitou entrar como parceiros da Associação Hospitalar de Bauru (AHB) na recém-inaugurada ala oncológica do Hospital Manoel de Abreu (..) Nós investimos mais de R$ 30 mil lá – fora as doações que pedimos e conseguimos em latas de tinta, mudas de grama e flores, persianas especiais e várias outras coisas.

JC - E como a ABCC avalia essa centralização do atendimento oncológico? Lyenne Cardoso - Vemos como uma coisa maravilhosa. Eu diria que é a realização de um sonho que nós, voluntárias, temos há muito tempo. Essa centralização vai nos permitir dar o melhor atendimento assistencial possível (...) Ela nos dá a possibilidade de estar muito mais perto do paciente, porque quando o voluntário entra o hospital, ele tem todos os pacientes num mesmo lugar, não se desperdiça tempo indo a uma casa, depois outra, depois a um hospital ou outro. Há uma dinamização no tempo dedicado à assistência.

JC - E como é feita essa assistência dentro do hospital? Lyenne Cardoso - Nós conseguimos montar uma sala de apoio nas dependências do Manoel de Abreu. Ali, nós distribuímos livros, revistas, oferecemos cortes de cabelo, de unha, vamos fazer artesanatos e a conversa que, sozinha, já vale por uma psicoterapia. É uma forma de trazermos o paciente para perto de nós e de desenvolver com ele um trabalho educativo e social.

JC - Isso já está sendo feito? Lyenne Cardoso - Já. Amanhã começaremos com os cortes de cabelo e manicure. Essa sala vai ser nosso ponto de apoio para pacientes e acompanhantes. Por enquanto, estamos atendendo pacientes da ala oncológica e crianças que freqüentam a brinquedoteca. No futuro, queremos estender o atendimento para o pessoal que faz quimio e radioterapia. Para isso, vamos capacitar novos voluntários.

JC - Mas como está a qualidade do diagnóstico na cidade? Lyenne Cardoso - Melhorou muito, mas acho que a parte de exames precisa avançar um pouco mais. Segundo nossas assistente social, o que falta não é no diagnóstico, mas na continuidade do tratamento.

Entre um ciclo e outro da quimio e radioterapia, o paciente tem que repetir alguns exames. E, para alguns, o agendamento ainda está lento. As cotas para exames ainda são insuficientes para a população.

JC - E qual é o tempo de espera para esses exames? Lyenne Cardoso - De acordo com a Gilséia, são dois meses para se fazer um ultrassom, cerca de 20 a 30 dias para a mamografia, 40 dias para a endoscopia. É nisso que a gente vê dificuldade, porque com o diagnóstico está tudo bem.

JC - E o agendamento de cirurgias? Tem sido difícil, demorado? Lyenne Cardoso - Existe um grande esforço dos médicos, principalmente agora com essa nova ala do Manoel de Abreu, para melhorar e agilizar esse atendimento.

JC - E como ele tem sido feito até agora? Lyenne Cardoso - Nisso não há problemas. E nossa grande expectativa é com a centralização no Manoel de Abreu. Porque, hoje, o paciente vai ao núcleo de saúde, depois é encaminhado ao serviço de prevenção, depois o Sistema Único de Saúde (SUS), para a ABCC, aí é que ele chega ao Manoel de Abreu. Existe um grande esforço, inclusive da AHB, para reunir tudo isso no hospital.

(...) A melhor coisa dessa ala oncológica do Manoel de Abreu é que todos esses serviços deverão ser transferidos para lá. Isso vai facilitar muito a vida do paciente, principalmente pela segurança de saber que ele não precisa viajar para ser tratado. Só de estar perto da família, ele já tem metade da sua cura garantida.

Eu gostaria de salientar que tudo isso que conseguimos fazer é graças ao trabalho voluntariado.

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