A contratação de médicos pediatras que possam percorrer regularmente as creches de Bauru é uma das alternativas apontadas pela Associação Paulista de Medicina (APM) para diminuir a procura por consultas nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) do município.
A proposta foi levantada pelo presidente da regional Bauru da APM, José Henrique de Oliveira Godoy. “Esses médicos visitadores, além de estenderem a assistência de saúde pública que já é oferecida, poderiam reduzir um pouco a demanda, já que eles iriam à fonte do problema”, opina.
Godoy acredita que a iniciativa também facilitaria a vida dos pais. “Hoje, as pessoas deixam seus filhos nas creches e só chegam em casa para resolver seus problemas familiares à noite. Além disso, os trabalhadores têm dificuldades de se ausentar do trabalho para levar as crianças ao médico”, diz.
Ele julga o setor de pediatria como o mais carente dentro da rede básica de atendimento da cidade. “A Prefeitura Municipal tem feito diversos concursos nos últimos anos, mas não não consegue preencher as vagas do setor”, diz.
Para o presidente regional da APM, a explicação para o fenômeno é simples. “Há uma insatisfação por parte deles, porque é uma área muito desgastante. O pediatra é um dos profissionais que mais pressão sofre na sua atividade. Ele precisa ter uma visão global de medicina voltada para a criança, mas também noções de outras áreas”, justifica.
Godoy avalia que a remuneração oferecida também contribui para a falta de interesse dos pediatras em ingressar na rede pública de saúde. “Mas sabemos que a prefeitura não pode aumentar o salário dos médicos sem contemplar outras categorias”, declara.
Ele descarta, porém, que a questão salarial seja responsável pelas reclamações da população quanto à qualidade do atendimento. “O médico é um ser humano como os outros e também está sujeito a varições de humor em determinadas circunstâncias, mas isso não costuma ser regra”, pondera.
Conselho
O representante do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) em Bauru, conselheiro Carlos Alberto Monte Gobbo, explica que não pode se pronunciar em nome do órgão sobre o assunto, mas como médico urologista acredita que a recusa dos profissionais em se tornarem concursados também está ligada às condições de trabalho.
Ele suspeita que muitos médicos tenham medo de serem cobrados pela situação social do País. “As pessoas mais desassistidas pelo governo estão fazendo parte de uma massa que está se revoltando contra todas as estruturas de poder. Qual é esse elo entre o povo da periferia e a classe dominante? É o médico”, opina.
Segundo ele, essa situação já é crítica em cidades como São Paulo. “Há relatos de médicos que já chegaram a atender pacientes com o revólver em cima da mesa e situações na periferia em que os bandidos invadem hospitais para resgatar presos”, diz.
Com relação ao número de consultas médicas disponibilizadas pelas unidades básicas de saúde de Bauru, o médico afirma que é preciso ter cuidado ao analisar os números. “É preciso avaliar a resolutividade dessas consultas. O que observamos muito, principalmente quando registramos alguma denúncia no Cremesp, é que o mesmo paciente passou por quatro ou cinco médicos em um espaço curto de dias”, relata.
Ele acredita que isso pode ser um indício de que a qualidade do atendimento deixa a desejar. “Muitos pacientes migram de um serviço para o outro, até por acharem que não foi resolvido o problema deles”, declara.
Gobbo, que chegou a ser diretor do Departamento de Urgência e Emergência da Secretaria Municipal da Saúde na década de 80, afirma que é preciso saber negociar a permanência dos médicos que desenvolvem um bom trabalho. “Se o sistema está funcionando bem e aquela pessoa está conseguindo ter uma boa relação médico-paciente com o bairro, alcançando respeito e credibilidade, o Estado precisa ter a sensibilidade de tentar evitar a saída desse profissional”, opina.
Segundo ele, o número de médicos que exercem a profissão em Bauru está acima dos níveis recomendados. “A Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que o ideal é um médico para cada 1.000 habitantes e nós temos um para cerca de 400 habitantes”, calcula.