As Escolas Municipais de Educação Infantil (Emeis) fazem, hoje e amanhã, matrícula de novos alunos para 2004, mas desde sexta-feira há filas em frente às escolas na tentativa de garantir vaga. A Secretaria Municipal de Educação informa que estão sendo oferecidas 4.798 vagas nas 45 unidades de Bauru para crianças de 2 anos e meio a 6 anos.
Apesar da diretora do Departamento de Educação Infantil da Secretaria Municipal de Educação, Rosângela Aparecida Zago Tirapelli, afirmar que as vagas serão suficientes para atender toda a população, muitos pais, mães e até avós resolveram acampar na frente das escolas com medo de não conseguir matricular suas crianças.
Por decisão judicial, a Prefeitura de Bauru está obrigada a abrir mil vagas em creches e pré-escolas, para atender as crianças na fila de espera, até outubro do próximo ano. Na Emei Magdalena Pereira da Silva Martins, no Núcleo Mary Dota, havia cerca de 30 pessoas na fila no início da noite de ontem.
Edno de Lima Vasco, 29 anos, o quinto da fila, tentava uma vaga na escola para o filho de 3 anos e meio, no maternal. Entre uma e outra partida de truco, ele lamentava a falta de organização. “Eles (responsáveis pela educação) deveriam pelo menos distribuir senhas, para que pudéssemos ir para casa e voltar só na segunda-feira”, diz.
À noite, na hora de dormir, uma parte recorria ao banco do carro, enquanto a outra se acomodava em colchões espalhados dentro de um caminhão-baú, estacionado ao lado da escola. A situação de quem estava na fila complicou-se quando começou a chover. O jeito foi proteger-se debaixo de uma lona improvisada.
“Se houver algum problema, podemos ampliar as vagas. Vai haver vaga para todo mundo. Não há necessidade de criar expectativa, as escolas estão preparadas porque nós aumentamos as turmas nas regiões onde havia problemas”, afirma a diretora do Departamento de Educação Infantil da Secretaria de Educação, para quem não há necessidade dos pais passarem a noite em filas na porta das escolas.
“Os pais não precisam ficar desesperados porque garantimos que vai haver vagas para todos. Mesmo nos bairros com população maior nesta faixa etária, a secretaria já se preparou para atender esta clientela”, diz a diretora.
Além das matrículas hoje e amanhã, os pais ainda poderão procurar as Emeis nos primeiros dias de fevereiro, quando as últimas vagas serão preenchidas. Dentre os alunos que já freqüentavam as unidades, 8.758 foram rematriculados até a semana passada. Mesmo os pais que tiveram a necessidade de mudar os filhos de escola já foram atendidos.
Para a matrícula, Tirapelli orienta que os pais levem a certidão de nascimento e a carteira de vacinação dos filhos, na unidade onde desejam efetuar a matrícula.
Na Emei Márcia Biguetti, também no Mary Dota, havia fila ontem à tarde e a indignação dos pais era grande. Ângela de Campos Franco, que também havia entrado em uma fila há seis anos para poder matricular um filho, não escondia seu descontentamento com a situação. “É um absurdo. A história se repete ano após ano e ninguém faz nada para mudar”, criticou.
O primeiro da fila era José Gonçalves, 33 anos. Acomodado em uma rede, na frente do portão da escola, ele aguardava desde às 10h30 de anteontem o início da matrícula, às 8h de hoje, para poder inscrever o sobrinho de 3 anos, no maternal.
De acordo com um cartaz pregado no portão, a Emei está oferecendo 18 vagas para o maternal, 81 para o Jardim 1, 32 para o Jardim 2 e 14 vagas para a pré-escola.
Na Emei Apparecido Pereira Pezzato, localizada na quadra 15 da rua Bernardino de Campos, a situação não era diferente: mais pais na fila aguardando o início das matrículas.
Luiz Carlos Bisocatti, 27 anos, foi o primeiro a chegar, carregando cadeira, garrafa de café e um cobertor. Ele abriu a fila por volta das 12h de anteontem e só sairia da frente da escola depois de matricular o sobrinho de 3 anos e meio.
Assim como ele, outras 15 pessoas procuravam se esconder do sol forte, no início da tarde de ontem. Pouco depois, a preocupação seria a chuva, que caiu forte no fim da tarde.
“Vale qualquer sacrifício para oferecer ao meu sobrinho um futuro melhor do que o meu e o dessas pessoas que estão na fila comigo”, declarou Bisocatti.
Período integral
A solicitação de vagas para as Escolas Municipais de Educação Infantil Integrada (Emeii) também pode ser feita de hoje até o dia 15. Estas unidades atendem crianças de 6 meses a 6 anos, que permanecem na escola em período integral. A Secretaria Municipal de Educação está disponibilizando cerca de 150 vagas em cada uma das seis unidades da cidade.
Tirapelli explica que todas as inscrições realizadas nas Emeiis passam por triagem, realizada por uma assistente social da secretaria. “Ela faz uma avaliação da situação econômica da família, para verificar a necessidade da criança permanecer lá o dia todo”, explica.
O número de vagas nas Emeiis ainda não foi fechado porque a análise das crianças que já freqüentavam as escolas ainda não foi finalizada. Os pais que realizarem a matrícula a partir de hoje terão a confirmação da vaga apenas em fevereiro.
Até quando?
Cenas como a que o Jornal da Cidade verificou ontem, principalmente à noite, nas imediações das Emeis, são inadmissíveis em uma cidade onde 25% do Orçamento anual vão para a Educação. Até quando as famílias terão que se sujeitar a passar uma ou mais noites em uma fila para garantir vagas a seus filhos? Até quando pais, mães, irmãos, tios e avós terão de tomar chuva, como ontem à noite, para assegurar a uma criança, numa disputa sem sentido, o que é obrigação do Estado? E como se não bastasse a agrura desta odisséia em busca de uma vaga, entra ano sai ano e a Secretaria Municipal de Educação não consegue imaginar uma alternativa àqueles que viram noites na fila. Uma simples distribuição de senha não seria uma solução? Ou outra que não obrigasse as pessoas a deixar suas casas em um domingo de chuva para ter o direito de estudar os filhos.