Como quem está sendo tragado por areia movediça, os adoradores do “deus” Mercado, que integram a nação pluriestatal a que tantas vezes nos temos referido, bracejam em truculência crescente, e cada vez afundam mais. É que o bracejar a que nos referimos vai rasgando os véus da mentira atrás das quais se vinham escondendo e continuam a tentar esconder-se, e a sua verdadeira face vai sendo revelada.
O morticínio de milhões de habitantes da África sub-saárica, mortos por efeito das armas que nenhum deles fabrica ou sabia manejar, individual ou coletivamente, cada vez se torna mais patente que se deve às inefáveis “democracias” do 1.º mundo, que lhes vende e ensina a manejar, ao mesmo tempo em que ousam posar de defensores dos direitos humanos. Aos vitimados diretamente pelo emprego das armas, somam-se os que morrem de fome ou de sub-nutrição, enquanto os “paladinos da liberdade” e da “democracia”, ocupam-se com esmagar a bombas os iraquianos, e ameaçam outros países islâmicos, como a Síria e o Irã.
De há muito que vêm os que servem ao “deus” Mercado, praticando essas injustiças terríveis, ocultadas pela formidável máquina de propaganda que manipulam. As Escrituras dizem: “Supondo-se sábios, tornaram-se estultos” - a que nos atrevemos a, em contraponto, dizer: “supondo-se práticos, tornaram-se bárbaros”. Sim; porque desprezado um referencial axiológico fixo, em nossa cultura judaico-cristã, representado pelas Escrituras, ser “prático” passou a ser levar vantagem em tudo. Agora, como quase todos se tornaram “práticos”, a sociedade humana transformou-se no inferno que ninguém de bom senso nega estar presente e se acentuando cada vez mais. Por isso, os regentes, as fontes de tanta esperteza, foram apanhados na armadilha da areia movediça em que agora bracejam e, em crescente truculência, cada vez mais se identificam e se revelam e se afundam.
É hora de nos lembrarmos de que o que o homem verdadeiramente deseja é ser feliz, é sentir-se feliz. E esse sentir-se jamais poderá ser alcançado por intermédio da sede insensata de um consumismo sem limites, como se existíssemos para consumir, desprezando a inamovível verdade de que a capacidade do homem ambicionar é ilimitada, sendo entretanto limitada a de possuir efetivamente. Assim, começam os povos a dar-se conta de que a ONU é uma assembléia em que se confrontam interesses diferentes e freqüentemente opostos, sob a égide revoltante e desaforada do grupo dos cinco que detêm o “direito” que se auto-atribuiram de vetar qualquer resolução, desde que apenas um deles dela divirja. E a única coisa que têm, de fato, em comum, é a força devastadora de que dispõem. Assim, os cínicos “defensores dos direitos humanos” e da “democracia” alicerçada na prevalência da vontade da maioria, nos achincalha a inteligência e tripudiam sobre as nossas angústias. São realidades amargas, nem por isso, porém, menos verdadeiras. Voltaremos ao assunto, se Deus quiser.
O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC.