Pesca & Lazer

História de Pescador: Metade pescaria e metade caçada


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“Deve fazer mais de 32 anos. Tanto tempo que não lembro de todos que participaram. Ainda não existia a barragem de Promissão, no rio Tietê. Às margens do rio, um pouco além de Sabino, havia uma grande plantação de arroz e, após a colheita, pela grande quantidade de grãos que ficou no chão, apareceram muitas codornas, já que a região, cercada por imensas pastagens, é, ou pelo menos na época era, apropriada à criação desse pássaro. Era mês de junho e o frio, intenso.

Marcamos então uma caçada de codornas e num sábado à tarde para lá partimos. Foram na frente para preparar o jantar o Flávio Reis e o Artur Preto, saudoso PM, que Deus o tenha. Como não tinham cachorro e não conseguiram outra coisa, mataram duas garças. Tentaram depená-las e não conseguindo, arrancaram a pele com pena e tudo, dando para imaginar o que sobrou: uma armação de costelas e finos ossos que, mesmo assim, foi para a panela.

O jantar ficou delicioso. Arroz e caldo de garça, já que a pouca carne que havia, mais parecia borracha cozida.

Após o jantar, nos preparamos para dormir. A caçada começaria com o clarear do dia. Lugar para dormir, havia apenas um rancho com palha de arroz e um encerado que levamos, pelo que resolvemos que ficaríamos apenas dois ali com os cães de caça. Os demais foram dormir em Sabino.

Meu companheiro, Sebastião Pereira, também já falecido (ainda bem que ainda estou aqui para contar a história), convidou-me para pegarmos uns bagres no Tietê, já que ele havia levado umas linhadas. Com o que sobrou da garça cozida, lá fomos nós. Eu já vestia um grosso abrigo para enfrentar o frio da noite.

Subimos em um barco que estava na margem e em pouco tempo tiramos uns dez ou doze bagres. Então resolvemos ir dormir. Quando tentei sair carregando sacola, lanterna, peixes e a pequena tralha, meu companheiro desequilibrou-se, balançando violentamente o barco, com o que fui parar dentro do rio. Agarrei-me à borda do barco e só pude ver o foco da lanterna afundando na água.

Consegui sair do rio e aí o mais doloroso: as malas com todas as roupas estavam nos carros que tinham ido para a cidade. Nem fósforos tínhamos e o fogo do jantar já estava extinto. Arranquei o abrigo encharcado e, com uma toalha, única peça a ficar, enxuguei-me, protegi com ela as partes mais sensíveis e meti-me no meio da palha de arroz, cujo pouco calor que produzia também era disputado por inúmeras formigas.

Lá pelas cinco da manhã, sem pregar os olhos e cansado de disputar espaço com as formigas, levantei-me e, mais gelado que um picolé, envolto apenas na toalha, comecei a correr pela estrada iluminada pela lua, na vã esperança de aquecer-me. A grande bênção foi ver os faróis dos carros que, ainda escuro, já vinham para iniciar a caçada, que por sinal, foi ótima.

Participaram desta meio caçada, meio pescaria, além dos já citados, meu cunhado Cirineu, o tio dele, também Cirineu, e possivelmente outros cujos nomes o tempo se encarregou de apagar da memória.

Aproveitando o espaço, um abraço a todos os que ainda estão por aqui.”

Jovercy Bergamaschi, ou simplesmente Berga, que tem um propósito: “Só usar esta coluna para narrar fatos realmente acontecidos.”

Nota do autor: Naquela época, a caçada de codornas era permitida de maio a agosto.

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