Polícia

Maioria dos detentos tem até 30 anos

Diego Molina
| Tempo de leitura: 6 min

Eles são jovens, em sua grande maioria. Poderiam estar finalizando um curso universitário, ganhando destaque no mercado de trabalho e construindo uma família, mas estão presos. Estão cumprindo pena por um, dois ou mais crimes que cometeram. Em Bauru, assim como em todo o Estado, o perfil dos detentos é, em maioria, de jovens entre 18 e 29 anos.

Cerca de 1860 homens estão presos atualmente nas Penitenciárias “Dr. Eduardo de Oliveira Viana” 1 e 2, chamadas de P1 e P2. Bauru tem ainda o Instituto Penal Agrícola (IPA), com cerca de 700 detentos, e o Centro de Detenção Provisória (CDP), que abriga em média 860 homens que aguardam uma definição quanto a sua pena. No Estado todo, mais de 58 mil pessoas estão dentro de presídios, cadeias e outros institutos de reclusão. Talvez por isto, ao invés de serem pais e trabalhadores produtivos, a sociedade os vê apenas como números.

Na P1 e P2, a população de presos com menos de 30 anos chega a 59,5% dos detentos. Na opinião do diretor técnico da P2, Aerton Cássio Prudente, ocorreu nos últimos anos uma redução na média de idade das pessoas que são presas e condenadas. “Antes, eles tinham idade mais avançada quando chegavam aqui dentro. Hoje, muitos são praticamente adolescentes, e isto é um problema social. Muitos nem tentaram começar a vida lá fora”, diz.

As duas penitenciárias de Bauru são de segurança média, cercadas com alambrados e cercas ao invés de muros. São 3 pavilhões em cada uma, projetados para abrigar cerca de 540 presos. Atualmente, cada uma tem por volta de 1.000 homens.

Não há levantamentos finalizados sobre a origem dos detentos. “A grande maioria dos presos é da Capital e de outras cidades grandes do Estado. Recebemos muitos presos transferidos pela Secretaria de Administração Penitenciária, mas também tem muitos de Bauru e região”, afirma Prudente.

Sérgio Willian Nogueira, 40 anos, é um dos detentos que se enquadra nesta maioria. Ele foi preso no final de sua adolescência, há cerca de 22 anos, por assalto, homicídio e outros crimes. Casado e pai de sete filhos, sua família é de Piracicaba.

“Ficar longe dos filhos é a pior coisa que existe na vida de um homem. Eu fiz o que fiz de errado e estou aqui, mas meu objetivo é me ressocializar e sair, ir embora e cuidar dos meus filhos. Quero trabalhar, ter um poder aquisitivo para não ter mais que roubar”, comenta Nogueira, com olhos firmes.

Ele está em Bauru desde 2001, quando foi transferido de outro presídio. Atualmente, Nogueira trabalha oito horas por dia, prepara peças de cabeçote para fios de alta tensão.

Dentro da P2, ele encontrou outra meta e começou a colocar no papel sua história e seu envolvimento com um dos mais organizados movimentos criminosos do País. “Estou escrevendo um livro sobre o Anexo, em Taubaté, onde eu fiquei quatro anos e 11 meses. É uma bibliografia, que fala do início do PCC (Primeiro Comando da Capital), do início do crime e dessas coisas erradas que eles fazem dentro do sistema. Eu conheci todos, antes de eles serem o PCC. Eu fui convidado para participar, em 1990, mas me afastei”, comenta.

Segundo Nogueira, a meta dos participantes que começavam a se organizar era a revolução. “O livro vai contar desde as primeiras idéias, as vontades que eles têm de revolucionar o País e tomar realmente o poder”, diz. Ele comenta, orgulhoso, que o livro já está quase pronto, em fase de correção.

Estudo e trabalho

O diretor Prudente explica que nas penitenciárias 1 e 2, muitos detentos chegam com pouca instrução, e há um fator importante que, segundo ele, desestimula o preso a estudar. “Temos a oferta de emprego nas indústrias. Bauru tem muitas empresas, e o detento faz a opção por trabalhar, aqui dentro ou na própria indústria, para conseguir uma remuneração e ajudar a família”, declara.

Para os que optam por terminar os estudos, há salas de ensino fundamental e médio e cursos profissionalizantes. O diretor comenta que a maioria dos presos procura uma atividade, porém há aqueles que não conseguem se adequar à situação. “Eles são jovens, querem trabalhar, estudar e ter uma chance de se ressocializar, mas temos uma porcentagem de presos problemáticos. É uma minoria. Na P1 e na P2, não temos muitos problemas de ordem disciplinar, mesmo com relação a fugas, mas isto é imprevisível, afinal, são seres humanos sem liberdade”, diz.

José Mário Guirardelli, 38 anos, está preso desde 1999 por tentativa de homicídio. Dentro da P2, ele trabalha no setor de educação como professor de aulas de alfabetização, supletivo, ensino médio e curso profissionalizante de construção civil. Antes de ser preso, ele havia cursado três anos de engenharia e quatro de arquitetura.

“Eu gosto de dar aulas, eleva não só a minha auto-estima como dos demais, que vão poder reiniciar a vida lá fora. Quando saírem, eles poderão ter uma profissão. Com as aulas, também têm um pouco mais de cultura, e saem habilitados para trabalhar. Pelo menos uma porcentagem do nosso propósito funciona, e é gratificante poder ajudar os outros”, diz.

Além do estudo e do trabalho, os diretores e os próprios detentos tentam encontrar outras maneiras de afastar o ócio e melhorar a convivência, sempre buscando o que eles chamam de ressocialização. Jean Carlo Harwich, 37 anos, está preso há 15 anos por assalto e porte de moeda falsa. Na P2, além de trabalhar no setor de assistência judiciária, ele desenvolve atividades culturais.

“Eu desenvolvo um projeto chamado Arte no Cárcere, e tenho uma banda de rock, temos um grupo de samba e estamos formando um grupo de pagode. Começamos a desenvolver estas atividades para afastar o ócio e também trazer aqueles que têm algum talento artístico, dar o valor para isto”, afirma.

Harwich diz saber que a volta de um preso para a sociedade é complicada, e por isto ele pensa em continuar trabalhando com arte e música quando for alcançar sua liberdade. “Eu me profissionalizei como músico nesta unidade, e quero fazer da música meu meio de subsistência, até por conta do preconceito que vou encontrar nas empresas. A prisão é uma vida sem futuro, mas a arte é uma profissão liberal”, declara.

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Começar de novo

De acordo com os levantamentos das duas penitenciárias, 363 presos são classificados como de fácil convivência, 1.084 são de convivência média e 416, considerados de convivência difícil.

“A maioria quer trabalhar, ter uma oportunidade e recomeçar a vida lá fora. Mas se o preso não recebe o tratamento digno, ele vai retribuir quando sair, e quem paga por isto é a sociedade, que acha que o problema carcerário é do Estado. Todos deveriam participar, porque não é só o Estado que enfrenta este problema”, afirma o diretor Prudente.

Na P1 e P2, diferentemente do que já acontece em algumas penitenciárias do Estado, são reunidos todos os tipos de sentenciados. Não há divisão dos detentos por tipo de crime cometido. O diretor vê que seria ideal separá-los.

“Divididos, em presídios especiais, eles convivem com pessoas do mesmo perfil. No modelo que existe aqui, dizemos que a penitenciária funciona como uma universidade às avessas. Tem todo tipo de criminoso e surge ali uma escola do crime”, afirma.

Na opinião do detento Nogueira, quem passa por uma penitenciária aprende que não há nada que compense a falta de liberdade. “A cabeça de todos aqui é voltada para a ressocialização. Todos vêm para cá cumprir pena, mas têm que chegar aqui e arrumar um objetivo, têm que ter um ideal de vida, estudar, fazer teatro, trabalhar, pensando na família lá fora e nele próprio. Aqui, quem pensa no crime não tem jeito. Mas quem quer sair para ter uma vida lá fora, não quer voltar, quer ficar bem lá fora”, conclui.

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