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O que queremos quando votamos?


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Você já notou que muitos políticos, depois de eleitos, melhoram de vida, mesmo que seja um pouco? E notou que alguns melhoram muito, mas muito mesmo? É isso aí. Parece que votamos para melhorar a vida deles e não a do povo. É claro que há as exceções, mas o melhor seria que as exceções se aplicassem a aqueles que usam o cargo público em benefício próprio e a regra fossem os que realmente usam o cargo em benefício público. É verdade que existem os eleitores que votam por interesse pessoal, para receber algum favorecimento, como uma nomeação ou algum negócio com o governo. Mas estes são a minoria.

A maioria, o povo mesmo, vota esperando mais segurança, melhores serviços de saúde e de educação, melhorias na cidade ou nas estradas e, principalmente, melhoria na situação econômica, com mais empregos. O povo vota com esperança coletiva, tanto assim que para muitos o único critério de escolha é verificar qual o candidato que parece ser do agrado da maioria. A sua escolha não tem convicção política. Se o candidato parece cativar a maioria, deve ser o melhor para todos. E esse é o ponto vulnerável, explorado por demagogos e pelo marketing político, que criam expectativas e esperanças enganosas. Aos olhos dos eleitores aparecem como defensores do povo, mostram conhecer as suas necessidades e prometem coisas que o povo está esperando, mesmo sabendo que não vão poder cumpri-las. Tudo pelo bem do povo, quando, na verdade, são os seus próprios interesses que estão sendo visados.

Nisso não há nenhuma novidade, sendo um assunto que tem varado os séculos ou milênios. Assim foi nos mais antigos impérios. Cerca de 380 anos antes de Jesus Cristo, Platão dizia, em A República, que aqueles que “tomam sobre si os encargos comuns do Estado... reclamam honorários, no pressuposto de que as vantagens do governo tocam, não aos governantes, mas aos governados.” Mais de um milênio depois, na Inglaterra, Thomas More, em sua famosa Utopia, põe na boca do personagem Rafael Hitlodeu a apologia do príncipe dizendo que “os homens escolhem um rei para sua vantagem e não para vantagem do rei, com o fim de viverem em segurança, ao abrigo de insultos e violências, graças ao esforço e ao trabalho do príncipe; e que por isso o dever deste é prezar mais a riqueza do provo que a sua própria riqueza, tal como um pastor, pois a sua condição aproxima-se da deste, que deve alimentar o seu rebanho mesmo em detrimento de si próprio.” Mas isto era na Utopia, uma ilha que nunca existiu, e não nos países da Europa onde os reis se diziam reis por direito divino e se julgavam identificados com a lei, como Luiz XIV.

Platão via com desagrado a maneira como os gregos eram governados, semelhantemente a outros povos, onde os reis só pensavam em aumentar os seus domínios e suas riquezas, que eram desfrutados por conselheiros e cortesãos, massacrando o povo com pesados tributos, arrecadados impiedosamente. Idealizou, então, uma república onde reinassem a paz e a justiça, para o bem de todos, governantes e governados. Retomando a idéia, Thomas More imaginou uma ilha onde o povo era governado dessa maneira. Como tudo não passou de um sonho, a palavra utopia ficou significando uma coisa boa mas irreal. O sonho, contudo, continua em todas as eleições de todos os países que dão ao povo o direito de escolher seus governantes. O duro tem sido acertar na escolha e a esperança vai ficando sempre para a próxima eleição. Enquanto isso, os honestos vão carregando o pesado fardo dos impostos para abastecer os cofres públicos, que a corrupção nunca deixa com o suficiente para as necessidades do povo.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é administrador e ex-diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru.

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