Polícia

"Camuflamos intolerâncias no Brasil"

Diego Molina
| Tempo de leitura: 7 min

A intolerância é um fenômeno de ordem social e, no Brasil, está intimamente ligada com as desigualdades sociais. As camadas menos favorecidas da população são excluídas e ao mesmo tempo recebem auxílio da população mais rica, numa ação que pretende redimir sua culpa da divisão desigual de renda no País.

Esta é a opinião do filósofo, professor de ética e filosofia Clodoaldo Meneguello Cardoso, que coordena o Núcleo pela Tolerância, no Departamento de Ciências Humanas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Bauru.

Nesta entrevista, ele comenta as causas e conseqüências da intolerância, a violência sofrida por toda a sociedade e as reações que estas situações provocam, como a aprovação do Estatuto do Desarmamento, aprovado na semana passada. Confira os melhores trechos abaixo.

Jornal da Cidade - Neste ano, a sociedade assistiu e se revoltou com diversos atos de violência. A intolerância é a principal causa destes acontecimentos?

Clodoaldo Meneguello Cardoso - Sempre temos notícias de atos intolerantes e violência no mundo. E estes fenômenos são de ordens, causas e características diferentes. Entretanto, há um ponto comum, muito expressivo entre eles, do ponto de vista conceitual, que é a intolerância entre pessoas e povos, que são expressões de pré-modernidade, de antes da modernidade, algumas relacionadas a tribos até primitivas. A civilização é a pacificação da existência. E esta civilização se imagina na modernidade, mas ocorre que ela não se concretizou. Fica este projeto inacabado de modernidade, ao pensar a humanidade como um todo. Também temos de pensar na tolerância, na diversidade destes grupos. No Brasil e em todo o mundo, temos muitos fatos e acontecimentos de intolerância bastante primitiva, de violência contra grupos de pensamentos diferentes, opção sexual, raça diferente.

JC - Qual é o principal problema relacionado à intolerância no Brasil?

Meneguello - No Brasil, a maior intolerância que temos é a questão da convivência na diversidade, e este problema passa necessariamente pela questão social. Não se pode separar a diversidade e a desigualdade social como se fossem dois problemas. Esta articulação entre a desigualdade e a diversidade é um caminho complexo, mas que marca a sociedade profundamente. Mas em nome da cordialidade, da convivência, nós camuflamos nossas intolerâncias no Brasil. Nós convivemos na diversidade desde que o diferente esteja longe, excluído, debaixo do tapete, como nossas crianças de rua, a pobreza na periferia. Isto é grave porque vai adiando um comprometimento maior da sociedade na solução do problema e formam-se atitudes veladas de intolerância e violência, que é a grande exclusão social. Quando você exclui, é porque você não tolera, e este apartheid brasileiro é a nossa grande intolerância.

JC - E por que a sociedade permanece distante das camadas excluídas, mesmo se mostrando tocada com este problema?

Meneguello - Eu diria que nós não percebemos que os problemas sociais são nossos, de todos. Ou jogamos para o governo - e claro que é uma questão do governo, pois tem de ter participação política - ou as pessoas se engajam em ações compensatórias. Porém, ainda não se percebeu uma coisa que é inevitável: não dá para melhorar a situação do pobre sem a divisão correta da renda. O rico no Brasil quer ajudar, ele abre um orfanato, abre uma ONG, mas não quer dividir sua renda. Há uma imagem de que é possível resolvermos o problema destes milhões de pessoas que estão passando fome, que estão sem moradia, sem dividir a riqueza. Existe a boa vontade, mas o rico não imagina que isto vá mexer com o nível de vida dele. Eu não imagino uma utopia, com igualdade social para todos. Mas esta é uma questão que deve ser pensada no Brasil.

JC - No final do ano, as pessoas tentam se sentir mais harmoniosas e em paz. Entretanto, quando ocorre um caso como o dos rapazes que foram atirados do trem por um grupo de skinheads, a revolta da sociedade parece ser muito maior.

Meneguello - O espírito do Natal, este sentimento de harmonia e confraternização, tem um lado da tradição, e as pessoas deveriam aproveitar para fazer um balanço das relações. Pelo contraste, a questão da violência dá a impressão de que é mais forte agora, mas ela ocorre em todas as épocas do ano. Nesta época, o problema nos chama mais a atenção. Casos como este dos skinheads já ocorreram no passado. São questões que têm outras conotações, como uma juventude totalmente desacreditada do futuro. Eles estão formando grupos com características de comportamentos pré-modernos e até primitivos. Eles buscam uma identidade e elegem um outro grupo como o inimigo. No conceito de identidade, está embutida a exclusão. Conforme você busca sua identidade, você se opõe ao outro.

JC - Quando a violência ocorre com uma família rica, a sociedade fica mais assustada?

Meneguello - Com certeza, fica mais assustada, com medo. Porém, também há uma cultura do medo que vende. Nas grandes cidades, vende-se não só produtos de segurança, mas toda uma postura de exclusão. As pessoas vão formando a idéia de que existem dois grupos: os bons, que somos nós, e os maus, que estão na cadeia ou foragidos. Esta visão é perigosa, porque assim como há um ato de violência que nós repudiamos, nós o cometemos também. Esta sociedade que tem medo também comete, dentro dela, outras formas de violência. Choca mais quando a violência é praticada por um grupo de fora.

JC - E qual é a reação da sociedade quando a violência se aproxima dela?

Meneguello - As reações das pessoas vão para dois caminhos: as passeatas de paz ou pedindo a morte dos assassinos. As passeatas e estes movimentos de paz são inócuos. As campanhas superficiais, meros movimentos de classe média quando não se enxerga a violência no sentido global e complexo. Ou a sociedade parte para a divulgação de mais violência.

JC - Telejornais mais populares, com apresentadores que se revoltam e pedem a morte de criminosos, também são formas de divulgar a violência?

Meneguello - Totalmente. Estes são programas preconceituosos, que confundem por má-fé o conceito de verdade, de mostrar a realidade, usando um discurso preconceituoso, altamente segregacionista e de posições excludentes. Este posicionamento deveria ser debatido nos cursos de jornalismo seriamente, porque este sofisma (argumento falso) é facilmente detectado, de pretender mostrar a realidade. Isto não é a realidade. O problema é que a mídia não assumiu a posição de educadora. Há meios de se avançar neste sentido, mas sempre deve-se ter cuidado para não cair na censura. Se você separa informação da educação, você deturpa todo o objetivo da mídia.

JC - Na última semana foi aprovado o Estatuto do Desarmamento. Como o senhor analisa a sociedade que se arma para defender-se dos criminosos tão bem armados quanto a polícia e os militares?

Meneguello - A arma na mão da população é um reflexo de um projeto de sociedade de exclusão. Na medida em que eu excluo, eu tenho que me defender de quem está fora, esta é a idéia. Hoje, a camada excluída tem consciência de seus direitos, do que ele não tem e o outro tem. “Quem está excluído, me ameaça”, então a sociedade vai se armar violentamente. E o excluído vai se armar também, só que ele tem menos armas. Parece que tem mais, mas quem tem é o crime organizado, que tem armamento pesado. E quem comanda o crime organizado é quem está dentro, e não o excluído.

O desarmamento é importante, mas tem de vir com outras medidas. No Brasil, estamos começando a ver um cerco na corrupção, o combate ao crime organizado e ações sociais de inclusão. Porém, só veremos o resultado quando toda a sociedade se engajar, e isto vai demorar. O desarmamento deve vir junto com uma série de ações sociais.

JC - O Brasil tem atualmente movimentos segregacionistas fortes?

Meneguello - Além da segregação social, temos uma grande dívida histórica com os negros e com os índios. A sociedade ainda tem um racismo profundo. Há uma tolerância do “patinho feio”. Você descobre que ele não é um pato, é um cisne. “Ele é diferente, eu aceito, mas então, ele que vá morar com os cisnes, com a família dele”, é assim que a sociedade brasileira funciona. Esta é uma tolerância da distância. Em relação aos negros, aos índios, aos homossexuais, parece-me que ainda temos isto muito forte no Brasil.

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