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Otimismo ou realismo


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Continua aceso o debate sobre a intensidade da recuperação econômica em curso. De um lado estão os otimistas que pregam aos céus o fim das épocas de vacas magras e a entrada do Brasil em um longo período de crescimento sustentado. Segundo esta corrente, formada principalmente por membros do governo, por economistas ligados ao mercado financeiro e por profissionais da imprensa, os indicadores do crescimento industrial do IBGE e do emprego na região da Fiesp, publicados recentemente, são provas suficientes para este otimismo.

Os que defendem uma posição mais cautelosa argumentam que a recuperação da produção industrial ainda não chegou aos outros setores da economia, como o comércio e as empresas de serviço, que respondem pela maior parcela do PIB e do emprego no Brasil. Os níveis recordes de desemprego e a queda na renda do brasileiro, nos últimos 12 meses, limitam de forma importante o impacto da redução dos juros, como força de dinamismo da atividade econômica.

A divulgação dos dados sobre as vendas do comércio no último mês de outubro, que apontam uma redução significativa em relação ao ano passado, reforça esta posição de maior cautela quanto à intensidade da recuperação econômica. Nos últimos 12 meses as vendas do comércio caíram 5,8% no período terminado em outubro, contra 5,5% no período até setembro, ainda mostrando uma aceleração do movimento de queda.

Estes dois cenários em relação à retomada da atividade econômica apontam para caminhos diferentes da recuperação do emprego e da renda. Na alternativa mais otimista, já em meados do segundo trimestre do próximo ano, a população estará sentindo uma melhoria em sua qualidade de vida e olhando com maior boa vontade para as constantes promessas do governo sobre o chamado espetáculo de crescimento.

No caminho mais difícil, as mudanças no humor do brasileiro só devem ocorrer a partir da segunda metade do ano e, portanto, muito próximo das eleições municipais. Nesta hipótese, faz sentido prever um aumento da temperatura política e de maiores pressões sobre a equipe do ministro Palocci para um afrouxamento da política econômica.

Uma informação importante, para que o leitor possa acompanhar “on line” esta disputa sobre nosso futuro, será o comportamento das vendas de fim de ano. Um Natal mais gordo fará com que o dinamismo da indústria seja reforçado no início do próximo ano, criando condições para a manutenção dos níveis mais fortes da atividade de hoje. Um Natal que frustre as expectativas do setor industrial e crie estoques indesejados no comércio, na virada do ano, dará mais força ao cenário mais conservador.

Em 2004, a atividade econômica e a política vão andar de mãos dadas, como sempre acontece em anos eleitorais. Além disso, a utilização da imagem da herança maldita, que blindou o governo Lula das dificuldades deste ano tão difícil, estará desgastada. Esta situação vai expor, de forma mais direta, a imagem do presidente às dificuldades na vida do brasileiro comum. (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES)

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