Regional

Em Paulistânia, parteira já aposentou

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Os 1.816 habitantes de Paulistânia (48 quilômetros a Sudoeste de Bauru) contam com uma unidade básica para atendimento médico. Tida como modelo, ela agrega atendimento ginecológico, clínica geral e pediatria em horário normal. Mas, se o assunto for urgência ou emergência, o destino é Duartina e Bauru, via ambulância. A parteira da cidade, dona Chica, aposentou.

O plantão das ambulâncias é de 24 horas e, graças ao tamanho da cidade, os moradores sabem quem é o plantonista e onde ele mora.

A encarregada da saúde, Maria Aparecida Lescova Fernandes, explica que os recursos são escassos e o número de habitantes pequeno para a instalação de um hospital.

Ela explica que, além das emergências e urgências, o transporte gratuito também é oferecido para os moradores que precisam de consultas de especialistas.

Para ela, a área da saúde evoluiu muito em Paulistânia. “Há 10 anos, não tínhamos esta unidade que foi inaugurada em 2001 e é tida como modelo. Aqui, além do atendimento médico, temos o dentista.”

Segundo ela, diariamente, são atendidas de 20 a 25 pessoas por especialidade. “O clínico geral atende de segunda a sexta-feira. O ginecologista na sexta e o pediatra na segunda e quinta-feira.”

Para as gestantes se prepararem para a chegada do bebê, a unidade oferece um programa voltado a elas. “O programa Gestantes prepara as mulheres para a nova etapa. Como cuidar do bebê, o que fazer em determinadas situações e até como tratá-lo emocionalmente, uma vez que no curso há palestra com uma psicóloga.”

Sem hospital, a história se repete. O município registra baixo número de nascimentos. “Este ano tivemos um nascimento em uma propriedade rural. O bebê nasceu antes da hora prevista e não deu tempo de levar a parturiente para o hospital. Ela chegou aqui com o filho no colo”, conta a encarregada.

Mesmo assim, a mulher foi encaminhada para o hospital, a fim de passar por uma avaliação. “Ela e o filho estavam bem. O bebê foi o único a nascer este ano em Paulistânia.”

Mais de 500 partos no currículo

Francisca Isaura Vicente, 78 anos, mais conhecida na cidade de Paulistânia como dona Chica, tem em seu currículo mais de 500 partos normais. Parteira desde moça, ela não lembra quando começou a ajudar as mulheres a ter filhos em casa. Dona Chica se recorda com saudade do tempo em que era acordada durante a madrugada para “pegar” uma criança.

Dos 540 partos feito por ela, três crianças nasceram mortas. “Nenhuma morreu em minhas mãos. Já estavam mortas na barriga da mulher. Nenhuma mulher morreu no parto.”

A idade e as dificuldades que os 78 anos impõem, fizeram com que dona Chica deixasse de prestar o serviço. “Há cinco anos que eu deixei de fazer partos. Eu não agüento mais. Há pouco mais de dois anos, fui chamada em uma fazenda, porque não dava mais tempo da mulher ser encaminhada para o hospital. Fiz o parto e deu tudo certo.”

Ela conta que aprendeu a profissão com a sua mãe. “Foi minha mãe que me ensinou. Eu comecei a ‘pegar’ as crianças depois que tive três filhos. Naquele tempo, as mulheres sofriam mais para ter filhos.”

O parto que mais marcou a vida profissional de dona Chica foi um que exigiu espírito de aventura e muita coragem. “O marido da parturiente veio me buscar com um cavalo só. Era noite e eu não tinha como me deslocar até a fazenda que ele morava.”

Sem pestanejar, a parteira subiu no cavalo e foi fazer o parto, deixando o marido sem a “condução”. “Fui sozinha. Era meia-noite e eu estava em frente ao cemitério da cidade. Estava tão compenetrada que não percebi. De repente, o galo cantou e eu assustei. Tremi de medo porque era o cemitério e naquele tempo se falava muito de almas penadas.”

O parto deu certo e mais uma criança veio ao mundo pelas mãos de dona Chica. “Hoje, alguns ‘filhos’ vêem me visitar. Muitos moram aqui ou nas propriedades rurais da vizinhança e me agradecem sempre que nos encontramos. É muito gratificante ser a ‘segunda mãe’ de tanta gente.”

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