Saúde

Doação de sangue cai 50% nas férias

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

Os meses de dezembro e janeiro são, tradicionalmente, os mais complicados para hemonúcleos de todo o País. Envolvidos por férias, festas e feriados, doadores voluntários desaparecem dos bancos de sangue, comprometendo os estoques em pelo menos 50%.

De acordo com a médica hematologista Telma Cristina de Freitas, diretora do Hemonúcleo de Bauru, a gravidade pode ser ainda maior dependendo do dia da semana em que caem Natal e Ano Novo. “Este período é sempre um problema. Mas quando os feriados caem no meio da semana e as pessoas emendam vários dias de folga, o número de doadores, que geralmente fica entre 50 e 70 por dia, despenca para 20”, ressalta.

O agravante é que, ao mesmo tempo, aumenta também o tráfego nas estradas e a ingestão de bebidas alcoólicas - situações que favorecem a ocorrência de acidentes, brigas e distúrbios gástricos graves. Num atendimento de urgência, a transfusão de sangue pode ser determinante entre a vida e a morte de uma pessoa.

“Não dá para esperar. Diante de uma urgência, não adianta fazer campanhas-relâmpago em rádio e televisão. Se você fizer uma doação de sangue agora, são necessárias pelo menos 24 horas entre exames e processamentos para que se possa utilizar esse sangue num paciente. Então, não podemos deixar nosso estoque zerar de jeito nenhum”, alerta.

Segundo Freitas, o Hemonúcleo de Bauru abastece todos os hospitais da cidade ligados ao Sistema Único de Saúde (SUS) - Hospital de Base, Hospital Estadual, Maternidade Santa Isabel, Hospital Manoel de Abreu, Instituto Lauro de Souza Lima, Hospital das Anomalias Craniofaciais (Centrinho/USP)-, além de instituições das cidades de Pederneiras, Duartina, Macatuba, Agudos e Piratininga.

“Quando conseguimos manter a coleta diária ao redor de 50 a 70 doações, ficamos com um estoque suficiente para três a quatro dias. É um estoque que consideramos estável, porém, ele não é confortável. Se houver um feriado prolongado de quatro dias, nosso estoque já estará comprometido”, explica.

“E aos finais de ano, a maioria das pessoas dedica-se exclusivamente às festas e às famílias. Isso representa uma queda muito acentuada no número de doações de sangue. Essa queda começa por volta do dia 20 de dezembro e só volta ao normal na segunda semana de janeiro. Então, temos aí um vácuo de 20 dias em que enfrentamos uma situação bastante precária”, acrescenta.

Segundo a médica, a expectativa do Hemonúcleo de Bauru para este final de ano é ainda mais preocupante. Ela explica que a inauguração do Hospital Estadual (HE) aumentou a demanda do banco de sangue em 40%. “Nós imaginávamos que os procedimentos do Hospital de Base (HB) seriam repartidos com o HE. Mas isso não aconteceu”, destaca.

Um ano depois da inauguração, o HB continua realizando o mesmo número de procedimentos, segundo ela, enquanto o HE passou a atender uma demanda regional que estava reprimida. “Na prática, se antes nós usávamos 100 bolsas de sangue, hoje nós precisamos de 140 - quase o dobro. E a gente está tendo que trabalhar muito para conseguir manter os estoques em condições ideais”, desabafa.

Para contornar a situação, o hemonúcleo acaba sendo obrigado a pedir reposição de sangue para as famílias dos pacientes que recebem transfusões. “Não gostamos de fazer isso, porque é muito triste para essa família - que já está desesperada com um membro doente - ainda ter de se preocupar em arrumar pessoas que estejam dispostas a doar sangue por elas. Mas, infelizmente, não dá para evitar isso”, afirma.

A médica informa que, atualmente, as coletas de reposição correspondem a praticamente 50% do estoque do hemonúcleo. Ela comenta que muitas pessoas sentem-se ameaçadas por isso e chega a dizer que se não arrumarem os doadores, seu parente ficará sem o procedimento.

“Não é bem assim. Não estamos coagindo as famílias a buscar esses doadores. Mas, infelizmente, a doação é a única forma que nós temos de repor um produto que é de origem humana. E muitas vezes somos mesmo obrigados a suspender uma cirurgia por falta de estoque. Por isso, essa prática de solicitar a reposição das próprias famílias é inevitável. Todos os hospitais do Brasil fazem isso porque não têm outra alternativa”, admite.

Para a hematologista, o que falta é conscientização. “As pessoas precisam se colocar no lugar dessas famílias e lembrar que elas podem estar ali amanhã dependendo desse sangue para sobreviver. As doações deveriam ser essencialmente voluntárias.

Se todas as pessoas que têm boas condições de saúde doassem sangue voluntariamente, não precisaríamos exigir um esforço tão grande dessas famílias”, observa.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o número de doadores anuais deve ficar entre 3% a 5% da população para garantir aos hemonúcleos um estoque satisfatório.

Considerando-se que Bauru (320 mil habitantes) registra uma média de 60 doações diárias, que um mês tem aproximadamente 20 dias úteis e que cada doador faz pelo menos duas coletas por ano, pode-se estimar que a cidade conta com 7.200 doadores anuais.

Isso equivale a 2,25% da população local - um percentual muito baixo em comparação à meta estabelecida pela OMS. Além disso, a estimativa só leva em conta o número de habitantes de Bauru e o banco de sangue abastece várias cidades da região.

A doação de sangue é a única que o ser humano pode fazer em vida sem correr qualquer tipo de risco. A coleta é feita em aproximadamente 15 minutos. Um adulto tem, em média, seis litros de sangue circulando pelo corpo e perde apenas 450 mililitros numa doação - quantidade que o organismo repõe facilmente em 24 horas.

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