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Vc e Tb


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O Brasil perdeu Rachel de Queiroz, aos 92 anos, mas não suas obras e seu testemunho. Sua prosa regionalista nordestina, de linguagem direta, viva e cheia de energia, permanece como um legado inesquecível, assim como o exemplo de mulher emancipada, decidida, cheia de opiniões, engajada politicamente, romancista, dramaturga e cronista de jornal. Suas obras de grande interesse social, como O Quinze, livro de estréia, publicado em 1930, e João Miguel, de 1932, enfocam não apenas temas como a seca e o coronelismo, mas também desnudam os traços psicológicos do homem e da mulher do Nordeste.

Rachel (ela gostava de ser chamada, sem formalidades, pelo primeiro nome), autora da Siciliano nos últimos onze anos (anteriormente suas obras eram publicadas pela José Olympio), foi a primeira mulher a entrar, em 1977, para a Academia Brasileira de Letras, abrindo caminho e rompendo tradições, como era de seu feitio. E sete romances, três livros infantis, duas peças de teatro, seis livros de crônicas, uma autobiografia e um de lembranças e receitas depois, deixou a vida sem medos. Certa vez, durante uma entrevista em 1988, disse que a morte “era um grande imã, uma grande amiga” e ansiava então por encontrá-la. Pessoa intrigante, fã incondicional de Machado de Assis (“Para mim é um deus”), Rachel nunca teve medo de viver e emitir opiniões.

De seu legado literário que façam bom uso os brasileiros, principalmente os jovens. Não o uso comum, de ler os livros para prestar vestibular ou tirar boa nota na prova de literatura. Que aprendam a beleza da nossa língua, sua riqueza, seu fascínio, sua capacidade de revelar a alma e a fibra de nossa gente; de relatar com encantamento ou tristeza dores e amores e de divulgar paisagens belas e tristes. Que esses mesmos jovens encontrem mundos já acontecidos ou vislumbres do futuro. Que mergulhem nas letras e (re)encontrem o Brasil.

Na informação cifrada dos dias atuais, onde tudo é quase sempre virtual e muito veloz, que os jovens encontrem tempo para perceber o prazer do conteúdo literário puro e rico, ao folhear as páginas escritas por Rachel. Que se esqueçam da linguagem cifrada dos ICQs, do vc e do tb (você e também, respectivamente). Que os jovens descubram o fascínio de ser capaz de se expressar com fervor por palavras redescobertas. (A autora, Ana Emília de Oliveira Silva, é editora geral do Grupo Siciliano)

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