Ufa!, demorou, mas, finalmente, 2003 está no fim. Um ano cheio de surpresas, na política e na economia: algumas surpreendentemente boas, outras nem tanto; e, ainda, num terceiro grupo, as más e preocupantes. É claro que o fato de 2003 ter sido o primeiro ano de gestão petista manteve todos - investidores estrangeiros, nacionais, classe média, trabalhadores, petistas e oposicionistas – em constante suspense, ao longo do ano.
Mas, vamos às surpresas. A maior delas, sem dúvida, ocorreu no campo político, no qual o PT, agremiação de perfil vagamente de esquerda e socialista, surpreendeu a todos, ao controlar, com mão de ferro, as principais variáveis macroeconômicas, como, por exemplo, inflação, preços, juros, superávit primário nas contas públicas, câmbio, etc.
Não que isso seja novidade. Antes do PT, os partidos socialistas espanhol e italiano fizeram o mesmo, em seus respectivos países, na década de 80; além de outro ex-líder sindical, socialista, trabalhador em um estaleiro naval, Lech Walesa, precursor histórico do nosso presidente Lula, também já ter aplicado, com sucesso, política econômica de austeridade, em seu país, a Polônia, no início da década de 90.
Mas daí a acreditar que tal política fosse possível aqui, onde tudo é mais ou menos pra valer, vai uma enorme diferença. Disso, decorreu o excesso de desconfiança de credores e investidores estrangeiros, que elevou, artificialmente, o chamado risco Brasil para as nuvens, nos primeiros meses do governo Lula.
Da surpresa inicial, vamos aos destaques positivos do ano: os fantásticos - para padrões brasileiros, é claro - superávits comercial (estimado em nada menos do que US$ 23,5 bilhões) e primário - aquele das contas públicas em relação ao PIB - que fechará o ano acima dos 5%, bem maior do que fora acertado com o FMI.
Esse duplo e excelente desempenho terá reflexos positivos no balanço de pagamentos, apesar da diminuição na entrada do investimento direto estrangeiro; e também na relação entre dívida pública interna, principalmente aquela parte atrelada à variação cambial, e o PIB.
Dentre as surpresas moderadamente boas, a maior delas foi a reforma da Previdência, embora, em novembro, o ministro Berzoini, por pouco, não a tenha transformado em retumbante fiasco, ao adotar o desastrado recadastramento dos aposentados com mais de 90 anos.
Bem, agora, passemos às más notícias, que não são poucas. A primeira decepção foi o crescimento do PIB. De uma projeção inicial de 1,8%, teremos de nos contentar com algo em torno de 0,2%, se não for menor ainda; em seguida, vêm os juros reais e os “spreads†bancários (diferença entre custos de captação e de aplicação), que vão fechar o ano em patamares astronômicos, apesar das quedas na Selic.
Por último, mas nem por isso menos importante: a reforma tributária, que elevou o arrocho para o setor de serviços, grande empregador de mão-de-obra, ao aumentar a alíquota da Cofins; o desemprego altíssimo - superior aos 12% no País e aos 20% na Grande São Paulo - e o recuo na renda dos trabalhadores assalariados.
Esses três últimos fatores combinados põem em risco as tentativas de retomada do crescimento, no novo ano. Portanto, esperemos por um feliz 2005 e vivamos um modesto 2004. (O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Federação Nacional das Associações dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil)