O governo Lula completará, ao final de 2003, um ano de Poder, mas sua influência começou antes do fechamento das urnas de 2002. No período que antecedeu a eleição, foram feitas milhares de remessas de dinheiro para o exterior, através das famigeradas contas CC5, de não-residentes lá fora. Entre janeiro e novembro de 2002, saiu do país, pelas CC5, US$ 8,73 bilhões, e a maior parte (US$ 5,99 bilhões) entre julho e outubro, quando o pleito já estava definido. As CC5 são utilizadas, dentre outras coisas, para enviar o chamado dinheiro sujo, produto do narcotráfico e da corrupção que grassa nos diversos níveis da vida pública brasileira, para fora do país. Existe uma CPI no Congresso sobre o assunto, mas ela não anda.
O Lula, que assustava os donos do dinheiro, hoje não assusta mais. Após sua posse, o sinal de direção do vil metal que transita pelas CC5 inverteu: ao contrário de sair, agora entra. De janeiro a novembro, dos US$ 2,63 bilhões que ingressaram no país, US$ 1 bilhão veio pelas CC5. Afirmar que o dinheiro que saiu é o mesmo que está entrando é difícil, mas suspeita-se que os desconfiados de ontem sejam os otimistas de hoje.
John Snow, secretário do Tesouro dos EUA, James Wolfensohn, do Banco Mundial, Anne Krueger, diretora-gerente do FMI e George Soros, megaespeculador internacional, são figuras de proa da economia global. Com eles, Lázaro Brandão, chefão do Bradesco, Paulo Setúbal (Itaú) e Pedro Moreira Salles (Unibanco), lideranças da banca tupiniquim que dispensam a citação de outros nomes, têm muita coisa em comum. Além de muito dinheiro e de não terem votado no Lula, têm, hoje, extrema admiração pela política econômica do dr. Palocci.
Por outro lado, a Heloísa Helena, senadora, o Pedro Stédile, comandante do MST, o sociólogo Francisco de Oliveira, fundador do PT, e os brasileiros como João C. Gimenes, 60 anos, desempregado desde 1990, Arthur C. Nogueira, 52 anos, funcionário público federal, Marília Bonjardim, pequena empresária do ramo de roupas e Eleutério A. de Souza, 91 anos, aposentado, também têm muita coisa em comum. Não são banqueiros, deram seu voto ao Lula e hoje têm horror à política econômica do governo petista.
São duas faces da mesma moeda chamada governo Lula. A face direita, onde os banqueiros debulham-se em elogios à Lula e ao Palocci, quando firmam compromisso com o FMI de um superávit nas contas públicas, de 4,25% do PIB anual. Isso significa arrocho e desemprego, mas os banqueiros sabem que tal medida garante o pagamento dos juros dos empréstimos, ao Brasil, sem choro nem vela. Para eles, os dois são os maiores do mundo.
Na face esquerda, nem as boas notícias do controle da inflação (fechará o ano em 8,5%) e do recorde no saldo da balança comercial (passará dos US$ 22 bilhões) são suficientes para espantar fantasmas como o desemprego, 12,9% da PEA, e a queda da renda do trabalhador em 2003, (-)15,2% até outubro. Os 15 mil e tantos assentamentos da reforma agrária este ano são vistos como um fiasco frente aos mais de 65 mil realizados em 2002. O IBGE afirma que o PIB ficará próximo a zero (0,2%), mandando o “espetáculo do crescimento” do Lula, pra’s calendas. Nessa rigorosa dieta, a voracidade dos bancos salta a vista: nenhum deles (dos grandes) lucrou neste penoso 2003 menos que R$ 1,8 bilhões.
Fica claro que Lula e Cia lustraram mais o lado direito da moeda e o governo que era para ser do povão, nesse caso, ficou no pretérito do verbo. O clima é de Natal, é de esperança e o futuro a Deus pertence. Quem sabe, em 2004, as coisas mudam.
O autor, Tidei de Lima, é engenheiro civil, ex-deputado federal, ex-secretário da Agricultura e ex-prefeito de Bauru.