O 2º Plano, inexorável da História, continua a operar. De fato, preso Saddam Hussein, em um obscuro buraco em subúrbio de Tikrit, exibe a mídia a serviço do “deus” Mercado, a imagem de um homem barbudo, desgrenhado e abatido. E os covardes massacradores do Iraque, sem que o percebam, continuam de fato a bracejar na areia movediça a que os conduziu a sua insaciável ganância. De fato, o que o mundo vê é que nada existe de comum entre o prisioneiro e o terrível possuidor de armas de destruição em massa, capazes de, em 45 minutos, produzirem uma hecatombe no mundo. Onde estão essas armas? Não foram elas o pretexto para o planejado e covarde massacre do Iraque, para apoderarem-se do seu petróleo e dos fabulosos negócios da sua reconstrução?
Ninguém tenha dúvida de que a resistência continuará naquele país, cuja resistência não tem como motivação profunda a admiração ou lealdade do ditador deposto. Ela vem do fato de sentir-se um povo de cultura multimilenar, violentado em suas vidas, em seu bens, e em sua cultura, sob o pretexto, agora claramente desmascarado. A “vitória” da prisão de Saddam, na verdade é uma fragorosa derrota, imposta pelo 2º plano da História que, inexorável, vai revelando à humanidade, a pouco e pouco, as raízes profundas da crise a que ela se deixou arrastar.
Repare o leitor como, nesse cenário, desponta no mundo, surpreendentemente, um novo ator, o Brasil, cuja mensagem, anunciada pelo atual presidente, fala mais a linguagem da cooperação, da boa vontade e da fraternidade, do que a da arrogância ou da prepotência. Exemplo disso está no perdão de uma dívida da Bolívia para conosco, e em alguns financiamentos do BNDES a países nossos vizinhos. O exemplo é modesto, de vez que não somos uma superpotência. A repercussão que tem tido a nossa atitude é que conta, pois sua explicação está no sentido da mensagem a que fizemos alusão. Os que são, agora, poderosos, em breve se darão conta de que a areia movediça em que começam a bracejar, consiste no que julgam seu poderio.
O processo pode ser lento mas, segundo entendemos, é inexorável, e seus resultados resultarão no surgimento de uma nova civilização, quem sabe justificadora das previsões de Dom Bosco. Ao menos como hipótese, o assunto, parece-nos, merece reflexão.
O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC.