A visibilidade, desde que desinibida, permite constatar-se que aumentou bastante a incidência de famílias domiciliadas e residentes sob viadutos e pontes nas metrópoles. Procedentes de regiões nordestinas, vêm para as tais cidades aspirando trabalho profissional. Sem consegui-lo rápido e segundo suas aptidões racionais acabam não tendo condições nenhuma para alugar casa ou palhoça a fim de se acomodar. Conclusão: ficam obrigadas a descobrirem o endereço de determinadas passarelas urbanas e nelas montam seus berços, representados por colchões estendidos no chão duro e anti-higiênico existente no local, onde podem permanecer indefinidamente sem que sejam molestados por ninguém, nem mesmo policiais, o que não acontece nos albergues e hospedarias públicas, nos quais são considerados realmente hóspedes, com direito de os utilizar somente durante algum tempo, previamente definido e sem possibilidade de prorrogação mínima que seja...
É um dos problemas da pobreza e da carência de empregos que martirizam o país, só minimizáveis eventualmente por famílias que, dotadas de alguma disposição física e mental, arregaçam as mangas e partem para algum serviço rentável debaixo dos viadutos, anexos à sua moradia, à margem do sol e da chuva, mas desprovidos de mínimos recursos quando necessitados de hospital, medicamentos e alguma coisa mais entre tantas das quais carece o gênero humano, por natureza necessitado e exigente.
Pergunta-se se teria jeito de se solucionar a problemática e para isso a resposta seria uma só, exatamente aquela que a sociedade tem na boca pronta para explodir no ar: reduzir-se pobreza que se encontra não só debaixo das pontes e viadutos mas, igualmente, no país inteiro, com bandeiras despregadas acenando junto da maior parte das categorias humanas sem que a democracia, o socialismo, o liberalismo, o comunismo e os demais tipos de regimes político-administrativos já tenham conseguido minimizar, não obstante a boa vontade que manifestam incessantemente perto ou distante dos pleitos eleitorais, quando prometem o milagre mas não apontam o santo que possa operá-lo convincentemente, demolindo os viadutos para que não continuem servindo de moradia inóspita para os desprotegidos da sorte. É a nossa opinião.
O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.