Presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Bauru (SinComércio) e vice-presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP), Walace Garroux Sampaio afirma que o desenvolvimento de Bauru não depende do comércio. Para ele, um setor varejista forte é apenas conseqüência de um crescimento econômico que deve passar pela descoberta da vocação da cidade.
De acordo com Sampaio, também presidente do Conselho Municipal de Turismo (Comtur), Bauru precisa agilizar a implantação de infra-estrutura para se consolidar como cidade de turismo de negócios - o que implica na criação do Convention Bureau -, e começar a pensar na criação de um pólo industrial a partir da inauguração do Aeroporto Internacional.
Como membro fundador do Grupo Pró Bauru (GPB), ele garante: será prioridade conseguir o repasse da verba do aeroporto para terminá-lo até 2005. Leia mais na entrevista que Sampaio concedeu ao JC:
JC - O ano terminou com um pacote de novas taxas, como a dos Bombeiros, a Contribuição para Iluminação Pública (CIP) e a nova tabela do Imposto sobre Serviços (ISS). Como o comércio encara essa questão? Walace Garroux Sampaio - Nós temos uma posição totalmente contrária ao aumento de carga tributária em qualquer nível, isso em taxas ou contribuições por parte do município. A carga tributária já está em níveis absurdos no País, seja para empresas ou para os contribuintes - que são os consumidores. Apesar disso, conhecendo o problema que nós temos em relação à iluminação pública, pois Bauru está ficando escura, novas avenidas são abertas sem iluminação, não há substituição de iluminação com vida útil esgotada, nós apresentamos uma proposta alternativa, que, felizmente, em linhas gerais foi adotada pela Câmara Municipal e colocada em níveis razoáveis.
Mesmo assim, nós não podemos nos esquecer que serão mais de R$ 4 milhões que serão tirados do setor privado no ano que vem e repassados à prefeitura para o pagamento de iluminação pública. Feito isso, entra mais a contribuição dos Bombeiros: mais uma causa meritória, que tem a nossa simpatia e solidariedade, mas é mais uma taxa colocada.
JC - No caso da taxa dos Bombeiros, uma proposta tida como mais razoável não foi aceita, ao contrário do que ocorreu com a proposta do GPB para a CIP. Sampaio - É o que nós propusemos: neste caso (taxa dos Bombeiros), é um projeto de péssima qualidade que foi mandado à Câmara, tecnicamente é muito ruim. Nós formulamos dez questões à Câmara para poder entender o que era aquele projeto apresentado. Dos dez, nove foram respondidos, e em grande parte o próprio Corpo de Bombeiros deu razão aos nossos questionamentos, sugeriu que fossem corrigidos através de emendas. Mas a grande pergunta que ainda não foi respondida é quanto se vai arrecadar com essa taxa, quanto os contribuintes e empresas contribuirão anualmente para mais essa taxa.
JC - É como se passasse um cheque em branco para a prefeitura? Sampaio - Exatamente. Nós apresentamos nessa última reunião (terça-feira) mais um trabalho do SinComércio mostrando que com uma contribuição anual de R$ 4,00 por imóvel de Bauru é possível gerar uma receita de R$ 800 mil por ano, que é a necessidade que os Bombeiros têm, conforme foi apresentado por eles. É um número mensurável, se saberia plenamente com quanto cada um vai contribuir, é uma coisa suportável. Evidente que esses R$ 4,00 não seriam aplicados a todos os imóveis indistintamente, mas é um valor médio adotado, escalonando um pouco mais para terrenos, um pouco mais para comércio e indústria, mas mantendo uma taxa média de R$ 4,00.
Infelizmente, isso não foi aceito na reunião. Foram colocados parâmetros que vão até R$ 30,00 para imóveis residenciais e terrenos e até R$ 500,00 para imóveis comerciais e industriais. Nós achamos que são valores absurdos, que vão levar a uma arrecadação provavelmente muito superior à necessária. E a argumentação apresentada na Câmara não nos convenceu, de que esse é um projeto-piloto, que vai vigorar no ano que vem, que se sobrar dinheiro no final do ano eles reduzem para o ano seguinte. Não é assim que se trata um assunto tão sério quanto a criação de uma taxa.
JC - O senhor avalia que, apesar disso, houve uma contrapartida da prefeitura para o comércio? Sampaio - Neste ano, para o comércio nós tivemos duas medidas muito importantes que terão segmento em 2004. A primeira foi a reforma da rua Rio Branco, fazendo com que ela se adequasse ao paisagismo do Calçadão. Foi um projeto piloto, que foi aprovado, e ano que vem tem a promessa da prefeitura de que será estendido a mais duas ruas transversais. Esta foi uma intervenção importante do Poder Público.
A outra foi aquele projeto formulado por nós, do Conselho de Revitalização da Área Central, concedendo incentivo fiscal para a reformulação para a reformulação das fachadas do Centro. Passado um ano, nós já temos exemplos maravilhosos de como o a área central vai ficar quando tivermos a uniformização das fachadas. O Centro está se renovando, as empresas estão com nova apresentação visual, tanto na parte externa quanto na interna. São duas intervenções muito importantes, já que ali houve uma renúncia fiscal do município da ordem de R$ 300 mil em forma de incentivo.
De qualquer forma, a prefeitura também demonstrou interesse muito grande em viabilizar a ampliação do Bauru Shopping, com todos os percalços que o problema tem. Na área do comércio tem havido uma preocupação muito grande por parte do município em melhorar o segmento mais importante da economia de Bauru, responsável por mais da metade da arrecadação tributária da cidade.
JC - Mas o comércio forte é apenas um sintoma do desenvolvimento econômico da cidade. Sampaio - Este é um ponto importante. Nós temos colocado que o comércio não é causa do desenvolvimento econômico do município, é mais conseqüência do desenvolvimento. O comércio, com prestação de serviços, atende a uma demanda que já existe. Na medida em que essa demanda aumenta, ele também progride. O problema que nós passamos em Bauru extrapola o comércio.
A cidade perdeu nos últimos anos os seus grandes vetores de crescimento. O maior vetor era o setor público. Bauru tem ainda uma classe média assentada sobre o funcionalismo do setor público, da administração direta ou indireta, de empresas estatais, autarquias etc. Do Plano Real até hoje, esse setor encolheu sobremaneira, com fechamento de postos de trabalho, transferência de escritórios regionais para outras regiões e é um setor que não tem reajuste salarial há dez anos, perdeu seu poder aquisitivo. Então, Bauru perdeu muito do seu fôlego de desenvolvimento em função de um problema localizado nessa classe média fundamentada no setor público.
Outro ponto importante era o grande número de escritórios regionais de empresas privadas em função da posição geográfica da cidade. Neste mesmo período, não pela mesma razão, mas pelo desenvolvimento da área de informática e telecomunicações, esse tipo de presença física não é mais necessária. Bauru perdeu fôlego nos últimos dez anos e precisa recuperar isso. Infelizmente, não será o comércio a atividade capaz de retomar o desenvolvimento.
JC - Que outras áreas poderiam ser responsáveis por esse desenvolvimento? Sampaio - A vocação de Bauru, claramente, é para o setor de prestação de serviços. Apesar de todas as tentativas de industrialização de Bauru, não é essa a vocação da cidade, não acontece. Também a agricultura não é fundamental para a economia da cidade, nós temos uma área muito pequena. O que Bauru tem hoje de bom é o setor de serviços.
O setor de ensino tem hoje algo em torno de 28 mil vagas estabelecidas nas instituições de ensino superior, sendo mais de 20 mil ocupadas. Este é um setor que, mesmo sem nenhum incentivo da parte pública, tem um crescimento muito grande, uma importância econômica muito grande.
Outro setor é o da saúde. Temos aqui, por exemplo, o Centrinho, o Instituto Lauro de Souza Lima, que é um centro de referência, e o novo Hospital Estadual, que será, sem dúvida, um fator de desenvolvimento pela sua abrangência regional. São fatores que nós temos muito conhecimento, até nos ufanamos deles, mas não enxergamos que são fatores econômicos importantes para o desenvolvimento do município. Mais da metade desses 20 mil alunos universitários são de fora de Bauru - e vivem aqui ou são da região e viajam todos os dias. Tudo isso tem uma valor econômico muito grande.
JC - E quanto ao turismo de negócios, o que tem sido feito? Sampaio - Nós temos trabalhado com o Comtur para a implantação do turismo de negócios, que é uma das áreas de serviço que Bauru tem potencial. O Comtur vem desenvolvendo um trabalho de base para que a gente implante efetivamente uma indústria de turismo de negócios em Bauru.
JC - Como está sendo esse trabalho? Sampaio - É uma série de planos, feita em parceria com universidades, mas para 2004 a gente pretende ampliar o Convention Bureau em Bauru, que é uma entidade civil que vai reunir todas as empresas envolvidas no turismo receptivo: agências de viagem, hotéis, restaurantes, casas noturnas, locadoras de veículos. Essa entidade deve fazer o trabalho de divulgação de Bauru e de investir na parte material, que seriam centros de convenções, melhorar as condições da instalações já existentes e investir em treinamento de pessoal.
JC - A área em que funcionava o antigo Lanchódromo também será aproveitada? Sampaio - Esse será o segundo projeto para o ano que vem: a construção de um centro de recepção ao turista, ou seja, de atendimento ao visitante de Bauru para que ele tenha qualquer informação que necessite sobre a cidade. Se tem de ir ao Fórum, se vai procurar um hospital, o próprio comércio, um aluno de fora que precisa de moradia, que precise alugar um veículo, enfim, atender à toda a demanda. Teremos também lá uma sala com artesanato típico de Bauru e um café que irá servir o tradicional sanduíche Bauru, uma marca conhecida no Brasil inteiro e que não é explorada, que só sobreviveu graças ao Zé do Skinão e aos familiares que o sucederam.
JC - A inauguração do Aeroporto Internacional é considerada preponderante para aquecer a economia de Bauru? Sampaio - O Grupo Pró Bauru adotou o Aeroporto Internacional como prioridade, por que na nossa visão o aeroporto será um dos grandes fatores de desenvolvimento da cidade, numa visão mais ampla. O aeroporto estará preparado para todos os tipos de aviões, preparado para carga - que hoje está concentrada em Viracopos (Campinas), um aeroporto que já tem problemas. Bauru vai criar um novo pólo para empresas que demandem transporte aéreo, e aí sim imaginar um pólo industrial em Bauru, de empresas pelas quais só funciona se houver transporte aéreo, como de aparelhos eletrônicos, ótica, brinquedos, uma série de indústrias.
Se você combinar isso à Eadi (Estação Aduaneira) e com a possibilidade de criar entrepostos em que você faça a produção em regime de importação de componentes internacionais, montagem aqui agregando componentes internacionais e reexportando esse produto final, é possível que, no futuro, haja um centro desse tipo. Nesse regime você não recolhe taxas de importação, pois os produtos são destinados à reexportação. A implantação de um pólo industrial é fundamental para o município, além de ser um grande gerador de Imposto sobre Serviços (ISS) para a receita do município.
JC - Quanto falta para finalizar o aeroporto? Sampaio - O aeroporto está com a pista principal construída, mas falta toda a parte de pistas auxiliares, construção civil e de equipamentos. A parceria prevê 30% de recursos do Estado e 70% de recursos do Governo Federal. Neste ano de 2003 nós não tivemos investimento de nenhum centavo no aeroporto, porque não houve transferência de recursos federais nenhum. Para 2004, há uma previsão no orçamento da União de R$ 3,6 milhões para o aeroporto, o que implica cerca de R$ 1 milhão do Estado - nós teremos um total de R$ 4,5 milhões. Para a conclusão, é estimada a necessidade de R$ 21 milhões.
No Plano Pluri-Anual (PPA) do governo, nós vimos que há destinação de recursos necessários até 2007, que vai depender das previsões dos próximos orçamentos. Do governo estadual nós temos o compromisso de que, havendo a liberação da União, o Estado dará sua cota-parte.